Conferência Nacional de Meio Ambiente

Tese
Fortalecendo o Sistema Nacional do Meio Ambiente


Ministério do Meio Ambiente

Ministra: Marina Silva
Secretário Executivo: Claudio Roberto Bertoldo Langone
Secretário de Biodiversidade e Florestas: João Paulo Capobianco
Secretária de Coordenação da Amazônia: Mary Helena Allegretti
Secretário de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável: Gilney Amorim Viana
Secretária de Qualidade Ambiental de Assentamentos Humanos: Marijane Lisboa
Secretário de Recursos Hídricos: João Bosco Senra
Diretor do Programa Nacional de Educação Ambiental: Marcos Sorrentino

Gabinete da Ministra

Chefe de Gabinete: Bazileu Alves Margarido Neto.
Assessores Especiais: Jane Maria Vilas Bôas, Fernando Antônio Lyrio Silva, Nilo Sérgio de Mello Diniz, Raimundo Alves de Lima Filho, Terezinha Lopes, Bruno Pognoccheschi.
Assessora Parlamentar: Jaura Rodrigues
Coordenador de Comunicação Social: Marcelo Caetano Moraes
Chefe de Consultoria Jurídica: Gustavo Trindade
Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
Presidente: Marcus Luiz Barroso Barros

Agência Nacional de Águas

Diretor-Presidente: Jerson Kelman

Instituto Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Presidente: Liszt Benjamin Vieira

Brasília-DF/2003

Conferência Nacional do Meio Ambiente
Coordenação-Geral: Rachel Trajber
Coordenação-Executiva da Conferência Nacional: Eugênio Spengler
Coordenação-Executiva da Conferência Nacional Infanto-Juvenil: Soraia Mello
Assessoria Técnica: Fábio Deboni, Márcia Albertini e Raquel Monti Henkin
Assessoria de Imprensa: Christiane Pereira, Giovana Perfeito, Sílvia Marcuzzo
Coordenação de Marketing: Tatiana Martinewski Bicca
Coordenação de Eventos: Cláudia Rodrigues da Silva
Coordenação de Comunicação Visual: Beatriz Serson
Equipe Técnica: Ana Lúcia do Carmo, Antônio Cardoso, Clóvis Souza, Délcio Rodrigues, Edson Cláudio Pistori, Eduardo Rombauer, Fábio Ourique, Georgina Fagundes, Henrique Santana, Júlio Frazão, Lucialice Cordeiro, Maria Magnólia Lima, Mauricio Laxe, Neusa Helena Rocha Barbosa, Paula Rocha, Pedro Ivo Batista e Vanja Bormann Lira.
Equipe de Apoio: Anelize Schuler, Fernanda Figueiredo, Glauco Monte, Gabriela de Oliveira, Helen Carolina Rocha, Ialê Garcia, Liliane Cardoso, Lilly Mattão e Marcos Garcia

Sistematização das contribuições ao Texto-Base

Coordenação: Patricia Kranz e Tereza Moreira
Equipe de sistematização: Ana Paula Borba Gonçalves Barros, André Stella, Andréa Figueiredo, Carmen Sampaio, Christian Niel Berlinck, Ednardo Machado, Fernanda Álvares Silva, Fernando Vasconcelos de Araújo, Flávia Pierangeli Carvalho, Heitor Medeiros, Luiz Henrique Fonseca Ribeiro, Maria Cristina Pedrosa, Maria de Fátima Pinto Marques Osório de Castro, Maria Henriqueta Raymundo, Mariângela de Araújo, Maurício Andrés, Nina Paula Ferreira Laranjeira, Symone Christine Santana Araújo, Sandra Larise Oliveira Santos Dantas, Sandra Soares de Mello, Simão Marrul Filho e Virgínia Pellegrini.
Desenvolvimento de software de banco de dados: Benê Arruda.
Alimentação de banco de dados: Saulo Oliveira, Danúbia Rocha Ferreira.
Colaboração: Alan Milhomens, Alberto Lourenço, Anna Cecília Cortines, Antonio Carlos Hummel, Antônio Giles, Antônio Manuel Barahona, Bráulio Dias, Cecília Ferraz, Celina de Mendonça, Celso Petrillo, Cláudio Pereira, Cristina Azevedo, Dulce Maria Pereira, Éldis Camargo Cunha, Elza Pires, Érika Borba Breyer, Fátima Oliveira, Franklin de Paula Júnior, Geraldo Siqueira, Gustavo Trindade, Hélder Naves Torres, Inês Persecchini, Irineu Tamaio, Larisa Gaivizzo, Lazara Alves, Leonardo Tinoco, Leonel Graça Generoso, Luciano Corlesso, Luis Augusto Bonzatto, Luiz Cláudio Figueiredo, Márcia Resende, Maria Carolina Hazin, Mário Menezes, Maurício Laxe, Mauro Pires, Muriel Saragoussi, Nazaré Soares, Pedro Ivo Batista, Pedro Eymard Melo, Rachel Biderman, Raildy Costa Martins, Raimunda Nonata da Silva, Roberta Del Giudice, Ruy de Góes Barros, Sandra Faillace, Sílvio Botelho, Sílvio Menezes, Tasso Rezende de Azevedo, Valmir Gabriel Ortega, Vanessa Balbino.

Agradecimentos

Às Comissões Organizadoras Estaduais, pela boa vontade, agilidade e presteza com que enviaram os relatórios de seus respectivos estados.

À Comissão Organizadora Nacional: Sylvio Petrus Jr. e Laura Duarte, do MEC, Magaly Medeiros e Janete dos Santos, da ABEMA, Jarbas R. de Assis Jr. e Elizete Siqueira, da ANAMMA, Dep. João Alfredo e Dep. Luiz Alberto, da Câmara dos Deputados, João Guilherme da Cunha e Gerhard Sardo, do Conama, José Mendo M. de Souza, da CNI, Assuero Veronez e Tibério Guitton, da CNA, Fidelis Paixão e Renato Cunha, do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais, Escrawen Sompre, representante das populações indígenas, e Dulce Pereira, representante das populações afro-brasileiras;
À Comissão de Honra da CNMA: Augusto Cunha Carneiro, Avelino Ganzer, Bertha Becker, Elenira Mendes, Eunice Baía (Taína), Fábio Feldman, Fernando Almeida – CEBDE, Glacy Zankan, Jecinaldo Barbosa Cabral – COIAB, Leonardo Boff, Magda Renner, Manuel Conceição Santos, Maria Lívia Cabral, Paulo Nogueira Neto, Raimundo Barros, Thiago de Mello e Washington Novaes Ministério do Meio Ambiente – MMA

Conferência Nacional do Meio Ambiente

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Brasília, novembro de 2003

Centro de Informação, Documentação Ambiental e Editoração

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO: COMO CHEGAMOS A ESTA TESE 7


PARTE I: ASPECTOS DA POLÍTICA E DA SITUAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL

Sistema Nacional do Meio Ambiente 11
Recursos hídricos 13
Biodiversidade e espaços territoriais protegidos 16
Agricultura, pecuária, recursos pesqueiros e florestais 19
Infra-estrutura: transportes, energia, mineração e telecomunicações 23
Meio ambiente urbano 27
Mudanças climáticas 31
PARTE II: PROPOSTAS PARA A POLÍTICA AMBIENTAL NO BRASIL
Sistema Nacional do Meio Ambiente 34
Recursos hídricos 40
Biodiversidade e espaços territoriais protegidos 48
Agricultura, pecuária, recursos pesqueiros e florestais 56
Infra-estrutura: transportes, energia, mineração e telecomunicações 83
Meio ambiente urbano 91
Mudanças climáticas 100

APRESENTAÇÃO:

COMO CHEGAMOS A ESTA TESE

Objetivo da Conferência

A realização da Conferência Nacional de Meio Ambiente tem por objetivo ampliar o debate e a participação popular na formulação de propostas para consolidar e fortalecer o SISNAMA, por meio da definição de diretrizes que orientem seus órgãos na elaboração e implementação de políticas públicas de gestão ambiental voltadas para um Brasil sustentável.

O Texto-Base

Para garantir um processo inclusivo, a metodologia escolhida foi a realização de pré-conferências nacionais e conferências estaduais abertas a qualquer pessoa acima dos 16 anos. Em diversos estados, foram precedidas por encontros regionais e/ou municipais. Ao todo, cerca de 65 mil pessoas participaram dos debates.

Como ponto de partida, foi elaborado um Texto-Base construído a partir de documentos resultantes de processos de consulta e debate, a saber: da Agenda 21 Brasileira – que envolveu 40 mil pessoas durante os quatro anos de sua elaboração e apresenta um extenso elenco de propostas para a sustentabilidade, do programa de governo para o meio ambiente e do Plano Plurianual 2004-2007 e das orientações estratégicas do Ministério do Meio Ambiente.

Naturalmente, nem no Texto-Base já debatido, nem na Tese aqui apresentada se pretende esgotar os assuntos tratados ou abranger todos os assuntos – esta seria uma tarefa impossível e o objetivo da Conferência é chegar a um acordo sobre o que é possível e prioritário ser realizado num primeiro momento.

O Processo de Construção da Tese

Foram realizadas pré-conferências em 17 estados e conferências estaduais em 10, nas quais as pessoas presentes apresentaram emendas ao Texto-Base e elegeram 912 delegados para a Conferência Nacional, aos quais se juntarão os 165 conselheiros do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH).
Para a redação desta Tese, foi necessário processar as 4.151 emendas aprovadas, buscando como resultado um conjunto de propostas concisas e compreensíveis. Este trabalho foi realizado por uma equipe que sistematizou as emendas aprovadas, unificando no texto as de conteúdo semelhante e dando destaque àquelas contraditórias. Foram eliminadas as repetições e explicações desnecessárias, como, por exemplo, a enumeração de todas as áreas consideradas, por lei, como áreas de proteção permanente.

Cada emenda foi tratada como uma importante contribuição, mas não foi possível incluir todas literalmente no texto final. Isso tornaria o material ilegível e prejudicaria o processo deliberativo da Conferência Nacional. Assim, esta Tese não apresenta as emendas com a redação precisamente igual à aprovada em cada um dos debates estaduais, mas o espírito o espírito de todas as emendas aprovadas está contemplado.

A exceção é as emendas do tema Meio Ambiente Urbano, de Rondônia, que não foram enviadas. Nem todas as emendas do Rio de Janeiro e de São Paulo estão incluídas, pois foram enviadas com atraso e sem sistematização.

Como critério para a redação final das emendas, foram consideradas a clareza do texto e a utilização de palavras que possam ser compreendidas pelo maior número de pessoas, além da exatidão e precisão técnica das informações. Para tanto, o texto final foi revisto por técnicos do Ministério do Meio Ambiente que, com a maior fidelidade possível ao conteúdo das emendas e somente onde necessário, indicaram como apresentar as informações sem imprecisões técnicas. Alguns temas que chegaram a ser tratados em separado nos estados foram incorporados aos temas já existentes.

Após a revisão técnica, foi feita uma revisão jurídica que indicou emendas com propostas de legislação já existente a serem retiradas desta Tese. A consultoria jurídica também indicou quais eram as propostas de competência federal que serão deliberadas na Conferência Nacional e quais deveriam ser excluídas por tratarem de temas das esferas estadual e municipal.

A sistematização também mudou algumas emendas de capítulo no texto, como por exemplo no caso de propostas de diretrizes incluídas no diagnóstico, fora do tema mais adequado ou repetidas em mais de um tema. Para facilitar a compreensão, o debate e a votação, algumas propostas foram aglutinadas e outras separadas para tratar de uma idéia de cada vez. Assim, a numeração da Tese não coincide com a do Texto-Base.

Também é importante destacar que o processo de aprovação de emendas em bloco que ocorreu em muitas pré-conferências e conferências estaduais permitiu a aprovação de emendas incompreensíveis e absurdas, que foram retiradas desta Tese. Falhas devidas a dificuldades no processo de sistematização nos estados são responsáveis por parte destes casos. Naquelas emendas em que foi possível identificar a idéia proposta, a redação foi refeita.

Na apresentação do texto, as emendas contraditórias foram colocadas em destaque em um quadro. No caso das emendas supressivas, também foi usado o
critério de utilizar a que proporcionasse uma melhor compreensão do texto.
Grande parte das emendas retiradas desta Tese referiam-se à legislação já existente ou pediam o cumprimento da lei.

Observação Importante

É compromisso do Ministério do Meio Ambiente promover a eqüidade de gênero e a inclusão de todas as minorias em suas políticas e junto aos demais Ministérios e instâncias governamentais.

O respeito à diversidade étnica, regional e cultural também não está citado especificamente ao longo do texto. É compromisso do Ministério do Meio Ambiente respeitá-la e promovê-la.
Para evitar que o texto ficasse ainda maior, a sistematização optou por não listar, a cada vez, quais eram as comunidades tradicionais, a não ser nos casos de questões que afetam alguma delas especificamente. Assim, em todo o texto, onde se ler comunidades tradicionais, entenda-se: quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais, extrativistas, coletores, caiçaras e quebradeiras de coco babaçu.

Da mesma forma, evitou-se alongar o texto com expressões do tipo "trabalhadores e trabalhadoras", "agricultores e agricultoras", estando a questão de gênero
implícita em todo o texto.

Pelo mesmo motivo, as emendas relativas à inclusão dos povos indígenas também só foram mantidas em questões específicas e naquelas em que eles não estão contemplados na legislação atual. Os povos indígenas, em todas as suas etnias, estão portanto contemplados cada vez que o texto mencionar o cidadão, a população ou o povo brasileiro.

Finalmente, sempre que mencionada participação ou participativo, entenda-se como a inclusão de todos os setores sociais, buscando-se fortalecer o processo de inclusão daqueles atualmente excluídos.

A Conferência Nacional

Agora chegou o momento de decidir quais serão as ações necessárias para se chegar ao produto final da Conferência, ou seja, um elenco de diretrizes para a Política Nacional de Meio Ambiente.

Diretrizes são o conjunto de instruções ou indicações para se tratar e levar a termo um plano ou uma ação. A partir das diretrizes aprovadas nesta Conferência, o Ministério do Meio Ambiente elaborará políticas públicas que serão traduzidas em programas e projetos a serem executados. Assim, é importante que, ao deliberarem e aprovarem o texto final, os delegados considerem a possibilidade real de sua execução -- aprovar diretrizes que não possam ser postas em prática só irá gerar frustração.

A Conferência Nacional não pode deliberar sobre ações a serem realizadas pelos estados e municípios nem sobre questões que sejam da competência de outros ministérios que não o do Meio Ambiente. Sugere-se que as propostas relativas a órgãos estaduais e municipais sejam encaminhadas pelas respectivas delegações às autoridades competentes. O Ministério do Meio Ambiente se encarregará de encaminhar as propostas relativas aos demais ministérios e buscará negociar sua incorporação às diretrizes deles. Também só serão discutidas e votadas as propostas relativas ao SISNAMA nas suas competências federais. O
compromisso do Ministério do Meio Ambiente é usar os resultados desta Conferência na elaboração de políticas públicas e na orientação para sua execução.

Mas é importante ter em mente que a responsabilidade pela questão ambiental não é só do governo. Para que as deliberações da Conferência sejam postas em prática é preciso que todos os setores da sociedade façam a sua parte.

PARTE I

ASPECTOS DA POLÍTICA E DA SITUAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL
SISTEMA NACIONAL DE MEIO AMBIENTE


Origens e concepção

01) A capacidade da atuação do Estado na área ambiental baseia-se na idéia de responsabilidades compartilhadas entre União, estados, Distrito Federal e municípios e entre esses e os diversos setores da sociedade. Vários sistemas e entidades foram criados nas últimas duas décadas para articular e dar suporte institucional e técnico para a gestão ambiental no País. No entanto, todos eles necessitam de fortalecimento e, em muitos casos, de reforço ou modificação de sua base legal, aumentando o nível de democracia interna, de controle social e coordenação entre as partes.

02) Essa concepção tem origem na Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambiente. A Lei estabelece conceitos, princípios, objetivos, mecanismos de aplicação e de formulação e instrumentos. Institui também o Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA) e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA).
Instâncias

03) O SISNAMA surge, nesse contexto, com a intenção de estabelecer um conjunto articulado de órgãos, entidades, regras e práticas responsáveis pela proteção e pela melhoria da qualidade ambiental, estruturando-se por meio dos seguintes níveis político-administrativos:

04) Órgão superior – Composto pelo Conselho de Governo que reúne a Casa Civil da Presidência da República e todos os ministros, tem a função de assessorar o Presidente da República na formulação da política nacional e das diretrizes nacionais para o meio ambiente e os recursos naturais.

05) Órgão consultivo e deliberativo – refere-se ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Reúne diferentes setores da sociedade e tem caráter normativo dos instrumentos da política ambiental. O plenário do CONAMA engloba todos os setores do Governo Federal, dos Governos Estaduais, representantes de Governos Municipais e da sociedade, incluindo setor produtivo, empresarial e de trabalhadores e organizações não-governamentais.

06) Órgão central – Ao Ministério do Meio Ambiente cabe a função de formular, planejar, coordenar, supervisionar e controlar as ações relativas à política do meio ambiente.

07) Órgão executor – O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) está encarregado de executar e fazer executar as políticas e diretrizes governamentais definidas para o meio ambiente de competência da União.

Criado em 1989, este órgão reuniu em suas competências uma gama de atribuições herdadas de diferentes agências (Superintendência do Desenvolvimento da Pesca – SUDEPE, Superintendência do Desenvolvimento da Borracha – SUDHEVEA, Secretaria Federal do Meio Ambiente – SEMA e Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF).

08) Órgãos seccionais – De caráter executivo, essa instância do SISNAMA é composta por órgãos e entidades estaduais responsáveis pela execução de programas e projetos, controle e fiscalização de atividades degradadoras do meio ambiente.

09) Órgãos setoriais – Órgãos ou entidades da Administração Pública direta ou indireta, as fundações instituídas pelo Poder Público, cujas atividades estejam associadas às de proteção da qualidade ambiental ou àquelas de disciplinamento do uso de recursos ambientais.

10) Órgãos locais – Trata-se da instância composta por órgãos ou entidades municipais responsáveis pelo controle e fiscalização dessas atividades em suas respectivas jurisdições.

11) No âmbito do SISNAMA foram criados nas últimas décadas vários instrumentos voltados prioritariamente a ações de comando e controle. Alguns deles são a avaliação de impactos ambientais, com a obrigatoriedade de estudos e de relatórios para obras, atividades e tecnologias potencialmente danosas ao meio ambiente, o licenciamento, o monitoramento, as certificações, o zoneamento ambiental, entre outros.

Articulação e Informação

12) Mas para atuar como um sistema, não basta ao SISNAMA estabelecer um conjunto de órgãos e de instrumentos. É preciso criar instâncias de articulação e fazer com que a informação circule. Dessa forma integram o SISNAMA alguns instrumentos idealizados para gerenciar e compartilhar a informação, possibilitar a avaliação e o acompanhamento permanentes das políticas ambientais do País, assim como fornecer recursos voltados a estruturá-lo e fortalecê-lo.

13) O Sistema Nacional de Informação sobre o Meio Ambiente (SINIMA) foi criado com o intuito de estabelecer uma base de dados capaz de gerenciar e disponibilizar as informações do sistema. O Relatório de Qualidade do Meio Ambiente (RQMA) surgiu como instrumento de monitoria e acompanhamento da qualidade ambiental. E o Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) foi idealizado no âmbito do programa Nossa Natureza com a finalidade de fomentar a
execução de projetos ambientais objetivando o desenvolvimento sustentável.

14) O SISNAMA prevê, ainda, a Agenda Nacional do Meio Ambiente. Nela devem constar os temas, programas e projetos considerados prioritários para a melhoria da qualidade ambiental e o desenvolvimento sustentável do País, indicando os objetivos e metas a serem alcançados em um período de dois anos. O processo de construção da primeira Conferência Nacional de Meio Ambiente possibilitará o aperfeiçoamento da elaboração da agenda.

Implementação do SISNAMA

15) O SISNAMA representou um começo de descentralização na gestão ambiental. Instituído há 22 anos, ainda não foi completamente estruturado. Requer avanços em sua forma de atuação integrada, aprimorando a articulação entre os diferentes órgãos que o compõem. A realização das pré-conferências nos estados e das conferências estaduais é uma base para que as experiências de implementação dos sistemas de meio ambiente nos estados e municípios sejam consideradas nas diretrizes para o aperfeiçoamento do Sistema.

16) Entre os problemas que o SISNAMA apresenta em sua implementação estão a falta de capilaridade, a falta de interação entre Federação, estados e municípios e a falta de autonomia das instâncias municipais. Foram criadas instâncias municipais de meio ambiente em cerca de 10% dos municípios brasileiros, ocorrendo, na ausência dessas, a concentração das atribuições para os âmbitos estadual e federal. A escassez de recursos financeiros e de pessoal qualificado para que o Sistema se estruture plenamente também constitui impedimento, assim como a falta de uma base legal revisada, consolidada e implementada.

17) O debate em torno da estruturação, do fortalecimento e da integração do SISNAMA constitui o tema central da Conferência Nacional do Meio Ambiente.
Três aspectos merecem ser discutidos em profundidade para fortalecer esse sistema:

18) Aumento da base de sustentação social das políticas ambientais – o SISNAMA deve incluir a participação e o controle social na definição de diretrizes e prioridades para a política ambiental. Vale ressaltar que a sociedade civil organizada, por meio das ONGs e dos movimentos sociais, cumpre um papel fundamental na consolidação e na ampliação do debate sobre as questões ambientais do Brasil e do mundo. Identificam-se, contudo, vários outros segmentos da sociedade que incorporam a variável ambiental em suas práticas e prioridades: quilombolas, povos indígenas e ribeirinhos, extrativistas, cooperativas, clubes de serviços, grupos de empresários, entre outros. É preciso ampliar e fortalecer os espaços de debate, de negociação e de deliberação das políticas ambientais para o país, buscando incluir esses novos atores. A Conferência Nacional do Meio Ambiente representará o marco estratégico de participação da sociedade na construção das políticas ambientais, algo que deve ser assegurado a todos os segmentos sociais também nos conselhos de meio ambiente, em âmbito municipal, estadual, distrital e federal, assim como em outros espaços públicos.

19) Descentralização da gestão ambiental – Um dos aspectos centrais do SISNAMA é o compartilhamento da gestão ambiental entre os entes federados. Mesmo necessitando de fortalecimento, esses organismos já estão estruturados nas esferas federal e estaduais. O mesmo não ocorre no âmbito dos municípios, o que demonstra a necessidade de políticas capazes de viabilizar e capacitar os órgãos municipais de meio ambiente assim como a articulação com outras políticas do setor público, e com a sociedade. Os órgãos ambientais do SISNAMA devem desenvolver ações de planejamento regional participativo, integrando Comitês de Bacias Hidrográficas, consórcios e associações municipais, intemunicipais, interestaduais além de identificar instrumentos destinados a financiar as políticas locais e regionais para o meio ambiente.

20) Transversalidade – É componente fundamental para que a questão ambiental passe a ser estruturadora do processo de desenvolvimento sustentável, garantindo, assim, a possibilidade de superarmos ações pontuais e de viabilizarmos a ação dos órgãos ambientais desde o seu planejamento. O SISNAMA deve promover o diálogo e a articulação com os demais sistemas voltados a áreas específicas da gestão ambiental, como o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos (SINGREH), o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e o Sistema Nacional de Gerenciamento Costeiro (SIGERCO)

RECURSOS HÍDRICOS

Da abundância à escassez

21) No Brasil a água é um bem público de uso comum da população. O Brasil possui 12 regiões hidrográficas, aprovadas pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), nas quais a distribuição e as condições de acesso à água são bastante diferenciadas. Existem desde regiões com elevado potencial hídrico (superficial e subterrâneo, como o Aqüífero Guarani) e água de boa qualidade, até regiões semi-áridas, e em processo de desertificação, com chuvas mal distribuídas e/ou irregulares. Além disso, existem áreas urbanas com sérios problemas de poluição e inundações, bem como grande desperdício industrial e agrícola. Ressalte-se ainda que a distribuição de água no País não corresponde à distribuição demográfica, havendo maior disponibilidade em áreas menos povoadas e vice-versa.

22) Convivemos com a cultura da perda e do desperdício. Em um século, a população brasileira aumentou três vezes, mas o consumo da água foi multiplicado por seis, enquanto os investimentos para melhoria da infra-estrutura não acompanharam esse ritmo de crescimento. As estatísticas sobre o desperdício de água apresentam um quadro alarmante: na agricultura, a inadequação das técnicas utilizadas para a irrigação produz perdas de água por evaporação e infiltração da ordem de 50%. Da mesma forma, estima-se que quase metade da água captada nos mananciais e que passa pelas estações de tratamento se perca entre o reservatório e o consumidor final, devido a problemas no sistema de abastecimento e a falhas na operação. O uso industrial também provoca considerável desperdício de água. Soma-se a isso o desperdício provocado pelos usuários no consumo doméstico, reflexo da falta de consciência e da ausência de políticas públicas para conscientização de que a água é um recurso finito.

23) Outro aspecto relevante é o da qualidade da água dos corpos hídricos, diretamente relacionada às formas de uso e ocupação dos solos, tanto no meio rural quanto no urbano. O crescimento desordenado das cidades, com infra-estrutura inadequada, tem provocado a impermeabilização dos solos reduzindo a infiltração da água das chuvas, assim como o aumento dos resíduos sólidos (lixo) e de esgoto. Nos centros urbanos, por falta de implantação de redes coletoras de esgotos sanitários, apenas 20% dos esgotos domésticos passam por alguma estação de tratamento para remoção de poluentes antes de chegarem
aos cursos d’água. Os rios ainda recebem efluentes não tratados provenientes de hospitais e indústrias e de atividades como a carcinicultura, estando sujeitos a vazamentos acidentais de produtos químicos, petróleo e resíduos de extração mineral, entre outros. A poluição difusa é responsável por 25% da poluição total dos rios. Devido à falta de investimentos e políticas ambientais adequadas, poucas cidades brasileiras têm sistema de manejo de resíduos sólidos eficiente do ponto de vista ambiental. Outros fatores, tais como a ausência de matas ciliares e as práticas minerárias, geram impactos irreversíveis e alteram o regime
hidrológico superficial e subterrâneo e a qualidade do solo.

24) No meio urbano a redução da cobertura vegetal, a ocupação desordenada das áreas de preservação permanente destinadas à proteção de nascentes, cabeceiras e leitos de rios e a não-compatibilização dos processos de urbanização com a preservação de corpos d’água -- levando à canalização de rios e seu desaparecimento da paisagem urbana -- comprometem a biodiversidade local e a qualidade das águas que abastecem a cidade, com reflexo direto na qualidade de vida de seus habitantes.

25) No meio rural e na zona costeira, atividades agropecuárias conduzidas de forma inadequada provocam acúmulo de nutrientes e agrotóxicos, contaminando o solo e a água por carga orgânica e química. A redução da cobertura vegetal, a destruição das matas ciliares e de galeria, a prática de queimadas, a movimentação do solo em áreas de grande declividade e a degradação das pastagens têm provocado erosão, assoreamento dos corpos d’água e processos de desertificação. A redução na qualidade e disponibilidade de água produz efeitos negativos em toda cadeia de seres vivos e afeta especialmente as populações mais pobres.

26) O aproveitamento do potencial hidráulico do País para a produção de energia por meio do barramento de cursos d’água com a formação dos grandes lagos das usinas hidrelétricas tem impactos negativos na qualidade das águas, determina o desaparecimento de espécies aquáticas, a destruição de vegetação 15 representativa de nossos biomas e a proliferação de outras formas de ocupação inadequadas nas margens dos lagos, acentuando a deterioração da qualidade das águas.

27) A degradação ambiental afeta a sociedade de forma diferenciada, atingindo com maior rigor as populações mais pobres das periferias dos centros urbanos, as reservas indígenas e as comunidades rurais de baixa renda. O desenvolvimento sustentável não se construirá sobre essas bases. É preciso mudar paradigmas, atitudes e comportamentos e fortalecer iniciativas baseadas nos princípios estabelecidos nas Metas do Milênio e na Agenda 21. Cabe ao Governo Federal apoiar a realização de obras para o saneamento urbano por intermédio de parcerias com a sociedade civil.

Gestão dos recursos hídricos no Brasil


28) Documentos resultantes de diversos eventos internacionais apontam para a importância da participação social na gestão dos recursos hídricos e na instituição dos sistemas de gerenciamento, com o objetivo de tornar o cuidado com a água uma responsabilidade de todos. A forma encontrada pelo governo brasileiro para implantar esse modelo de gestão está descrita na Lei n° 9.433, de 1997, que define a bacia hidrográfica como unidade de planejamento e gestão de recursos hídricos. É nesse âmbito que devem ser implementados os mecanismos institucionais de gestão integrada, descentralizada e participativa, na figura dos comitês de bacia hidrográfica.


29) Esses comitês são formados por usuários de água, pela sociedade civil organizada e por representantes do Poder Público municipal, estadual, distrital e federal. Juntamente com os conselhos nacional, distrital e estaduais de recursos hídricos, o Ministério do Meio Ambiente/Secretaria de Recursos Hídricos e a Agência Nacional de Águas, os comitês e as agências de água compõem o SINGREH. Uma das características inovadoras desse sistema foi a criação de uma agência com autonomia administrativa, para fiscalizar e outorgar o uso da água.

30) Esse modelo de gerenciamento visa a coordenar a gestão integrada das águas, implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos, além de planejar e controlar o uso e a instituição do conceito do usuário-pagador por intermédio da cobrança pelo uso da água. A articulação do SINGREH com o SISNAMA é também um dos fatores para o sucesso na gestão dos recursos hídricos, com a integração de instrumentos tais como a outorga e o licenciamento ambiental.

31) Fundamentos e políticas – Um dos fundamentos que regem o SINGREH refere-se ao uso múltiplo das águas e ao reconhecimento do seu valor econômico e estratégico. Outros valores, como o ambiental, o social e o cultural também devem ser considerados pelo Sistema. A Lei nº 9.433 estabelece instrumentos para facilitar a política nesse setor:

32) Planos de Recursos Hídricos, seja o Plano Nacional de Recursos Hídricos, os Planos Estaduais de Recursos Hídricos ou os Planos de Bacia Hidrográfica.

33) Sistema de outorga (autorização, permissão ou concessão) é o instrumento pelo qual o Poder Público permite ao interessado o direito de utilizar as águas de seu domínio, por tempo determinado, em condições preestabelecidas, tendo como referência os Planos de Recursos Hídricos discutidos e aprovados nos comitês. Tem como objetivos assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água superficial e/ou subterrânea e o efetivo exercício dos direitos de acesso de todos à água com qualidade.

34) Enquadramento dos corpos d’água em classes, segundo usos preponderantes.

35) Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, base para definição e aplicação de todos os demais instrumentos.

36) Cobrança pelo uso da água como mecanismo fomentador, disciplinador e educativo.

37) O Plano Nacional de Recursos Hídricos é um plano estratégico de longo prazo, pactuado entre o Poder Público, os usuários e as comunidades, inclusive os povos indígenas, que visa a fundamentar e orientar a implementação da Política de Recursos Hídricos, propondo diretrizes e grandes metas. O Plano Nacional orienta os estados e os Comitês de Bacia em seus respectivos planejamentos.

38) Alguns macroindicadores podem ser usados para se verificar os avanços em direção à sustentabilidade em cada região: a melhoria da qualidade da água, o aumento da oferta de água bruta (ou seja, sem tratamento), o aumento do acesso à água pelos diversos usuários, de acordo com a disponibilidade e a necessidade, e o grau de repovoamento de rios e lagos pelas espécies nativas da região.

39) A participação efetiva da comunidade no gerenciamento dos recursos hídricos depende de conhecimento sobre as águas de sua região, além dos aspectos legais que envolvem direitos e deveres dos cidadãos e empresas. Essas informações precisam ser divulgadas e disponibilizadas para toda a sociedade, priorizando as comunidades de baixa renda. É necessário também estabelecer processos de educação continuada, criar novos métodos e direcionar os já existentes para o uso sustentável e a gestão compartilhada das águas, utilizando todos os tipos de tecnologia da informação disponíveis, inclusive meios eletrônicos, de forma interdisciplinar e multidisciplinar, integrada e transversal, para aumentar o acesso a informações e serviços relacionados à água.

BIODIVERSIDADE E ESPAÇOS TERRITORIAIS PROTEGIDOS

Valor estratégico da biodiversidade

40) O Brasil é campeão mundial de biodiversidade, possuindo entre 15% e 20% da biodiversidade mundial e o maior número de espécies endêmicas conhecidas do globo. Grande parte dessa riqueza biológica é ainda desconhecida e pouco utilizada. Tão rica quanto a biodiversidade é a variedade cultural constituída por povos indígenas e comunidades tradicionais, como quilombolas, extrativistas, coletores, pescadores artesanais, sertanejos, caiçaras e ribeirinhos, detentoras de conhecimento sobre o uso e conservação da biodiversidade.

41) A conservação desse patrimônio requer conscientização e a adoção de práticas de uso sustentável dos recursos naturais. Pressupõe também a valorização, o registro e o compartilhamento do conhecimento etnobiológico e cultural dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Os povos indígenas têm especial importância para a conservação das diversas espécies existentes, especialmente as medicinais, e devem ser beneficiados de forma justa e eqüitativa pela utilização desse saber. É necessário reconhecer a sabedoria tradicional como ciência, conferindo-lhe tratamento equivalente aos conhecimentos científicos ocidentais.

42) A diversidade biológica desempenha importante papel estratégico na economia e melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro, devendo ser reconhecida como a grande propulsora do desenvolvimento do País. A manutenção dos recursos genéticos traz inúmeros benefícios para o desenvolvimento de produtos industriais, tais como fitoterápicos, fármacos e alimentícios, além disso proporciona o melhoramento de variedades agrícolas e o controle de pragas e doenças, configurando-se também como reservatório de genes disponíveis para o presente e o futuro. Dentre os inúmeros serviços prestados pela biodiversidade pode-se destacar a estabilização do clima, a purificação do ar e da água, a manutenção da fertilidade do solo e do ciclo de nutrientes, assim como benefícios culturais, paisagísticos e estéticos.

43) A agrobiodiversidade, composta por espécies de plantas, animais e microorganismos utilizados em práticas sustentáveis rotineiras dos pequenos agricultores, povos indígenas e as comunidades tradicionais, que ainda não foram incorporados pela lógica de mercado, constitui patrimônio de alta relevância para a Nação. Destaca-se como instrumento de segurança e soberania alimentar, de identidade cultural dos povos, de conservação da diversidade genética e da riqueza de espécies.

44) Diante desse valor estratégico, a diversidade biológica e cultural brasileira deve ser considerada base para a sobrevivência, desenvolvimento do País e vantagem comercial em relação a outras nações. A valorização, a conservação, a preservação, a recuperação, o manejo sustentável e o uso múltiplo da biodiversidade, assim como a valorização e a preservação do conhecimento tradicional, da cultura e da troca de experiências entre comunidades, são desafios a serem assumidos como prioritários pelo governo e por toda a sociedade.

Ameaças à biodiversidade

45) A história econômica do Brasil mostra que o sistema produtivo tem sido mal gerenciado e sempre esteve e permanece associado ao uso intensivo e predatório dos recursos naturais. Tal situação é insustentável ecológica, econômica e socialmente. A expansão agropecuária não planejada, ou não compatível com as condições de cada bioma, vem ocorrendo de maneira desenfreada, na maioria das vezes deixando para trás a degradação ambiental e social. Todos os biomas brasileiros dão sinais de exploração excessiva, com perdas significativas da biodiversidade.

46) O aumento populacional, a urbanização descontrolada, a ocupação irregular do solo, a exploração mineral, os desmatamentos e a fragmentação de ecossistemas, as queimadas, a superexploração de recursos naturais, a utilização de tecnologias inadequadas na produção florestal, pesqueira, agropecuária e industrial, a indefinição de políticas públicas e as obras de infra-estrutura implantadas sem os devidos cuidados estão entre as principais formas de destruição da diversidade biológica. Constituem-se também como ameaças a falta de recursos para a pesquisa e as atividades de conservação e de fiscalização e de estímulo à educação ambiental e para a implementação de práticas sustentáveis. Acrescenta-se a isso a introdução de espécies exóticas da flora e da fauna e a comercialização ilegal de espécies silvestres.

47) O potencial de espécies exóticas (animais, vegetais ou microorganismos) em modificar sistemas naturais é tão significativo que as espécies invasoras são atualmente consideradas a segunda maior ameaça mundial à biodiversidade, perdendo apenas para a destruição de hábitats pela exploração humana. Tornam-se imperativas ações educativas e punitivas coordenadas e contínuas que possibilitem o controle dessas espécies, bem como a redução de seus efeitos.

48) Outro fator que pode constituir ameaça à fauna e à flora nativas refere-se aos organismos geneticamente modificados (OGMs). É preciso estabelecer diretrizes de biossegurança, com o desenvolvimento de instrumentos legais para análise de risco, composição e natureza. Nessa questão, assim como em relação a todos os produtos potencialmente nocivos à saúde e ao meio ambiente, o Brasil deve adotar o princípio de precaução, tomando medidas preventivas, em cumprimento à legislação em vigor.

49) O Brasil precisa criar, aperfeiçoar e implementar mecanismos de combate à biopirataria, o que inclui rever e atualizar a legislação, tornando mais rigorosas as sanções ao infrator. Neste sentido é preciso articular e intensificar ações governamentais, com a participação da sociedade, criando mecanismos mais eficazes nas áreas de fiscalização, educação ambiental, sistemas informatizados e relações internacionais. Além disso, é fundamental aprofundar as ações que garantam a aplicação da legislação internacional sobre o tráfico de espécies silvestres.

50) Contexto internacional – A Convenção da Diversidade Biológica (CDB), um dos mais importantes resultados da Rio-92, consagrou os recursos genéticos como patrimônio de cada nação, entretanto muitos países industrializados defenderam a tese de que tais recursos fossem tratados como patrimônio comum da humanidade. A Convenção prevê ainda que os benefícios do uso desses recursos e do conhecimento tradicional associado sejam repartidos de maneira justa e eqüitativa.

51) O Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança, de janeiro de 2000, cria uma instância internacional para discutir procedimentos sobre movimentação e manuseio de organismos vivos modificados por biotecnologias modernas. A adesão do Brasil já foi aprovada pelo Governo Federal, faltando, entretanto, a regulamentação e aprovação pelo Congresso Nacional.

52) Uma das estratégias para a conservação da biodiversidade é a criação, ampliação e manutenção de áreas protegidas. Estamos longe de atingir, no âmbito federal, o mínimo de 10% de unidades de proteção integral por bioma recomendado mundialmente. Aproximadamente 2,78% do território nacional constituem unidades de proteção integral – como Parques Nacionais e Reservas Biológicas – e 5,52%, unidades de uso sustentável – como Florestas Nacionais e Reservas Extrativistas.

53) Diferentemente do que muitos acreditam, as unidades de conservação não representam obstáculos ao desenvolvimento. Prestam serviços ambientais, educativos, científicos e sociais e devem ser incorporadas ao planejamento público do desenvolvimento. Possibilitam a geração de renda às comunidades locais e/ou do entorno, por meio do uso sustentável dos recursos naturais e do ecoturismo.

54) O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), instituído em 2000 pela Lei
nº 9.985, regulamentou os critérios para criação e gestão das unidades de conservação. Integrou sob o mesmo marco legal as unidades dos governos federal, estadual e municipal. Entretanto, ainda não foi totalmente regulamentado e os órgãos responsáveis por sua implementação necessitam de infra-estrutura e de recursos humanos adequados. Outro desafio para o fortalecimento do SNUC é o incentivo para a participação da população em todas as etapas de criação e gestão das Unidades de Conservação, criando o sentimento de co-responsabilidade.

55) A Lei nº 9.985, regulamentada pelo Decreto nº 4.340, de agosto de 2002, dá também os primeiros passos para a institucionalização dos corredores ecológicos e mosaicos, buscando reduzir a fragmentação dos biomas por meio de uma rede de diferentes tipos de áreas protegidas. Dessa forma, unidades de conservação são gerenciadas de forma integrada com terras de povos indígenas e de outras populações tradicionais e áreas de empresas e proprietários particulares, permitindo otimizar os recursos financeiros, administrativos e ambientais.

56) A Política Nacional da Biodiversidade (PNB), instituída em 2002 pelo Decreto nº 4.339, é o instrumento legal que define os princípios e as diretrizes para a proteção da diversidade biológica brasileira. Resultado de processo de consulta, a PNB abrange sete componentes: conservação, uso sustentável, monitoramento, acesso a recursos genéticos, proteção de conhecimentos tradicionais e educação, porém ainda há muitas dificuldades para sua implementação.

57) A Educação Ambiental desempenha papel fundamental na conservação da biodiversidade. Por meio de ações educativas, as comunidades locais podem descobrir que o uso sustentável dos recursos naturais, assim como a existência de unidades de conservação nas proximidades, representam chance de melhoria da qualidade de vida, fonte de subsistência e de renda. Pode lhes indicar também maneiras de planejar suas próprias estratégias de sobrevivência e promover canais de acesso a informações relevantes.

58) Indicadores de sustentabilidade: percentual de áreas florestadas ou cobertas; conservação do solo e percentual de áreas de preservação permanente com vegetação nativa; intensidade do desflorestamento; a diminuição de áreas afetadas por processos erosivos e de desertificação; área protegida como porcentagem de área total; área de ecossistemas-chaves selecionados; riqueza e diversidade de espécies; lista de espécies extintas ou ameaçadas; abundância de espécies indicadoras selecionadas, efetividade das normas legais de proteção ambiental; manutenção da cultura e conhecimentos tradicionais; do índice de desenvolvimento humano; número de comunidades beneficiadas economicamente pela detenção e repasse de conhecimentos sobre o uso da biodiversidade;
número de comunidades tradicionais desenvolvendo práticas sustentáveis, entre outros.

AGRICULTURA, PECUÁRIA, RECURSOS PESQUEIROS E FLORESTAIS


Situação do meio rural

59) Quase um terço da população brasileira, ou seja, 52 milhões de pessoas, vive nos 4.500 municípios do Brasil rural e outros 22 milhões em 570 municípios considerados “rururbanos”, assim chamados porque suas atividades econômicas mesclam características urbanas e rurais. Durante a década de 1990 houve crescimento populacional superior às médias estaduais e nacionais em 1.109 municípios rurais, o que revela crescimento da diversificação das formas de trabalho e renda nesses municípios e uma tendência de descoberta de novos nichos de mercado, trabalho e renda.

60) No entanto, o mesmo país que faz da exportação de alimentos a força motriz do seu desenvolvimento precisa de um programa para combater a fome. Os modelos agrícola e aqüícola que privilegiam a exportação provocam erosão dos solos, desperdício de água, perda dos recursos da biodiversidade, contaminação por agrotóxicos dos solos, dos rios, dos lençóis freáticos, do ar, dos animais e dos seres humanos, além de causarem a exclusão social de agricultores familiares e a violência no campo.

Agricultura e pecuária

61) Este modelo de produção não contribui para a segurança alimentar. A monocultura e a intensificação da criação animal causam problemas sociais e
ambientais, tais como concentração da posse da terra, empobrecimento dos agricultores familiares, êxodo rural e degradação dos recursos naturais. Os programas destinados a facilitar o acesso à terra, crédito, habitação, água potável e eletricidade baseiam-se no assistencialismo ou na compensação por perdas. A terra destinada à agricultura familiar e à reforma agrária é insuficiente, de má qualidade, de difícil manejo e situada em áreas marginais para a produção, criando a necessidade de orientação e de disponibilização de técnicos qualificados.

62) O modelo agrário brasileiro continua permitindo a instalação de assentamentos para fins agropecuários em detrimento da conservação de grandes áreas de florestas. Apesar dos instrumentos de controle e de financiamento, os processos de invasões das florestas e posterior legalização ainda ocorrem, causando grandes prejuízos para a biodiversidade e agravando a pobreza no campo. Como conseqüência, ocorre também o abandono da terra pelos assentados ou sua venda por preços irrisórios, aumentando os bolsões de miséria nas cidades.

63) A falta de uma política agrícola que promova a fixação do homem no campo favorece o constante fluxo migratório. Os assentamentos são compostos, na maioria das vezes, por agricultores de outras regiões e pessoas estranhas ao meio rural, que trazem na bagagem sistemas produtivos inadequados.

Reproduzem o modelo dominante, principalmente dos grandes latifundiários, quando retiram a vegetação nativa — com uso do fogo, de máquinas e motosseras — e a substituem por cultivos anuais e pela pecuária. A baixa ou nenhuma sustentabilidade, a falta de educação ambiental, de crédito, de assistência técnica e de extensão faz com que avancem sobre as áreas de proteção permanente e de reserva legal.

64) As políticas para os diferentes setores produtivos estimulam a degradação ambiental e afetam negativamente as populações indígenas, comunidades tradicionais, extrativistas e agricultores familiares, inclusive as comunidades de pesca artesanal, que dependem diretamente da natureza para sobreviver.

Embora continuem sendo responsáveis pela maior parte da produção, não têm recebido apoio para construir um modelo de desenvolvimento local sustentável.

Permanecem à margem das políticas de crédito, dispondo de poucas opções para se inserirem nos processos de desenvolvimento do País. É imprescindível criar mecanismos e alternativas econômicas que possibilitem a manutenção das comunidades tradicionais, bem como fortalecer as associações e cooperativas.

65) O crédito rural mostra-se pouco adequado, insuficiente, mal distribuído e de difícil acesso, tanto para a agricultura familiar quanto para populações tradicionais, mulheres e jovens, devido à burocracia, à falta de estrutura bancária e às garantias exigidas, em flagrante descumprimento da lei. A rede de assistência técnica e extensão está mal aparelhada, não possui estratégia unificada de desenvolvimento rural e carece de capacitação para suprir as demandas de quem opta pelo manejo agroecológico. Concentra-se na agropecuária e deixa de lado outras atividades rentáveis, muitas delas não-agrícolas e de menor impacto ambiental, como o agroecoturismo ou turismo rural, a fabricação de produtos artesanais e a aqüicultura. Freqüentemente apóia projetos de atividades concentradoras de renda e poluentes. A rede de ciência e tecnologia está orientada predominantemente para o modelo de agricultura convencional, muitas vezes fora de sintonia com a extensão rural e as necessidades dos agricultores na perspectiva da sustentabilidade.

66) Desafio – A estruturação e a capacitação dos órgãos do SISNAMA e dos demais órgãos que atuam no setor rural em todas as esferas do Estado para a gestão ambiental incluem a incorporação do conceito de sustentabilidade nas políticas públicas, como parte de sua estratégia na relação com os setores econômicos que compõem as grandes cadeias de produção. Para isso, deve-se levar em conta que as soluções sustentáveis são específicas para cada ecossistema e para cada unidade territorial de planejamento ambiental. Exigem, ainda, conhecimentos agroecológicos e geomorfológicos que necessitam de mais tempo para serem multiplicados do que os pacotes tecnológicos.

67) O planejamento rural sustentável deve ser feito em conjunto com as cidades e de forma participativa. São fundamentais a geração, a validação e a difusão de tecnologias adequadas às diversas regiões, respeitando-se suas especificidades, vocação e tradição, de modo a promover o fortalecimento da agricultura familiar e a inclusão social, enfocando o apoio à economia local e fortalecendo os elos locais da cadeia produtiva. É necessário o aprofundamento do compromisso com os setores mais pobres da população, com a introdução de técnicas e práticas que conduzam à prosperidade das famílias, à criação de sistemas agroflorestais e à regularização da situação fundiária. Este sistema também deve garantir o compartilhamento de poder e responsabilidade entre Estado e usuários, além do diálogo entre os saberes científico e tradicional.

68) A reforma agrária deve ser suficientemente ampla para promover a desconcentração fundiária, viabilizar a agricultura familiar e resgatar a verdadeira função social, ambiental e produtiva da terra. Deve ainda gerar emprego e renda, preservação ambiental e justiça social, além de priorizar assistência técnica, infra-estrutura, crédito, educação ambiental e capacitação para as famílias assentadas, integrando-se à cultura e às estratégias de desenvolvimento local integrado e sustentável, segundo a vocação de cada bioma. É importante combinar assentamentos agrícolas com reservas naturais e assentamentos extrativistas. O respeito à legislação ambiental inclui licenciamento, zoneamento ecológico-econômico, demarcação, averbação, fiscalização e manutenção da reserva legal de uso comum aos assentados e a recuperação e a manutenção das áreas de preservação permanente.

69) A agricultura orgânica ou ecológica, a agrossilvicultura, a agroecologia e os sistemas de produção integrada e sustentável vêm apresentando forte crescimento, tanto na produção como na abertura de novos espaços de mercado. O cooperativismo e o associativismo também constituem instrumentos importantes para o desenvolvimento da agricultura familiar e ecológica, bem como do desenvolvimento rural. O programa Fome Zero, entre outros programas de segurança alimentar desenvolvidos nos diversos estados da União, poderá contribuir para a ampliação de mercado para a agricultura sustentável e o fortalecimento do mercado interno, ainda incipiente. O consumo interno e a exportação para mercados que exijam ou valorizem produtos com características socioambientais positivas e com agregação de valor também constituem importantes oportunidades para a agropecuária, a pesca, a aqüicultura, a agroindústria e o setor de produtos florestais.

70) As famílias rurais, aos poucos, estão diversificando suas atividades econômicas. Essa modernização da agricultura familiar tem como característica maiores oportunidades de geração de empregos não somente pelas possibilidades de industrialização difusa, como por uma infinidade de serviços técnicos, sociais e pessoais, a exemplo do agroturismo e ecoturismo.

71) É evidente que a expansão desse tipo de desenvolvimento trará demandas ao SISNAMA: instrumentos e metodologias de gestão ambiental rural, capacitação de técnicos e lideranças locais para o planejamento participativo, pesquisa, financiamento da infra-estrutura ambiental, acompanhamento e avaliação permanente das ações a serem implementadas localmente.

72) Indicadores de sustentabilidade – cobertura do solo, erosão, disponibilidade de água, qualidade da água, ocorrência de vegetação nativa na propriedade e em áreas de reserva permanente (encostas e margens de rios, açudes, lagoas e outros), índice de desmatamento anual, índice de reposição florestal, reposição florestal do estoque madeireiro consumido, aumento da produção/exportação da agricultura orgânica ou ecológica, da agrossilvicultura e da agroecologia, utilização de agrotóxicos e manejo de resíduos podem revelar avanços e/ou retrocesso em direção à sustentabilidade agrícola.

Recursos Pesqueiros e Aqüícolas

73) Cerca de 80% dos recursos pesqueiros costeiro-marítimos de maior relevância econômica encontram-se sobreexplotados ou próximos de tais níveis. A pesca predatória – expressa pelo excesso de esforço de pesca e a inadequação de métodos, artes e práticas pesqueiras – tem sido apontada como a causa mais visível, potencializada por uma política que privilegia as exportações.

74) Além disso, outros problemas ambientais têm contribuído para a queda da produtividade pesqueira e para o desaparecimento de espécies aquáticas, incluindo-se entre eles: a ocupação desordenada das praias, a atividade de carcinicultura realizada em áreas costeiras; a degradação dos ecossistemas de manguezais; as atividades de turismo desordenadas; a erosão dos solos; a dragagem dos rios, o uso de agrotóxicos e a introdução de espécies exóticas por "águas de lastro".

75) Nos ambientes aquáticos continentais, observações e relatos de grupos de pescadores revelam considerável perda de produtividade pesqueira e de biodiversidade. Isso se deve ao barramento dos principais rios para usos múltiplos, ao desmatamento das margens e cabeceiras, às queimadas, ao assoreamento de lagos e lagoas, à poluição – tanto química quanto orgânica – à introdução de espécies exóticas, à criação de bubalinos, ao crescimento
urbano desordenado e à escassez de água nos períodos de estiagem. Tais fenômenos podem ter origem a milhares de quilômetros de onde são observados, tornando mais importante a interação entre estados, municípios e comunidades para a sua resolução.

76) Na raiz de tais problemas encontra-se um sistema de gestão do acesso e uso dos recursos pesqueiros que desconsidera saberes, conhecimentos, projetos de vida e objetivos dos diversos grupos sociais pesqueiros ou não, além de não levar em consideração a multiespecificidade das pescarias e a capacidade de suporte dos ecossistemas. As normas de acesso e uso desses recursos são geradas com pouca participação dos usuários. Isso faz com que eles se sintam pouco comprometidos com a sustentabilidade dos recursos, fato agravado pela pressão provocada pelo desemprego e a fome. Contudo, nos últimos anos houve avanço político no trato desse tema. A criação da Secretaria Nacional da Pesca poderá possibilitar maior integração entre os governos federal, estaduais e municipais, a sociedade civil organizada e as comunidades de pescadores e aqüicultores na construção de políticas públicas.

77) A aqüicultura se apresenta, pelas condições ambientais do País, como uma alternativa para o aumento da produção nacional de pescado, do emprego, do trabalho e da renda no setor, ampliando a geração de divisas. Por outro lado, dependendo de sua forma de implementação, da espécie criada, do ambiente ocupado, da tecnologia, métodos e procedimentos utilizados, pode ser uma atividade causadora de impacto ambiental.

78) Desafio – O desafio para o País é a construção de um sistema de gestão integrada e participativa dos recursos pesqueiros e aqüícolas que tenha a sustentabilidade como elemento central. Esse sistema deve garantir o compartilhamento de poder e de responsabilidade entre Estado e usuários, apoiar a pesca artesanal reconhecendo sua importância social e econômica e promover o diálogo entre os saberes científico e tradicional. Dessa forma, haverá condições para o aumento da produção nacional de pescados e de emprego e de renda no setor, contribuindo para a inclusão social e a justiça ambiental.

Faz-se necessária, também, a criação de mecanismos e normas que garantam a sustentabilidade socioambiental nas práticas aqüícolas.

Recursos florestais

79) No Brasil, há cerca de 550 milhões de hectares de florestas nativas e aproximadamente 5 milhões de hectares de florestas plantadas, o que representa 64,3% do nosso território. Essa é a base sobre a qual se extraem recursos para finalidades diversas, como produtos madeireiros e serviços socioambientais. O setor florestal é responsável por grande parte do Produto Interno Bruto brasileiro, emprega milhões de pessoas e gera benefícios ambientais. Existe, porém, uma precariedade em toda a rede de produtos e serviços florestais -- seja na pesquisa, na utilização e no destino final desses recursos --, bem como ineficiência do aparelhamento institucional, que não incentiva e promove uma política florestal regionalizada e a reposição de mata nativa.

80) Apesar de a indústria de celulose ter como base a floresta plantada, o avanço desordenado da fronteira agrícola, bem como a falta de políticas claras para os setores de base florestal, tem contribuído para o processo predatório. O mogno, especialmente, tem sido alvo de pressões nacionais e internacionais, quer para sua comercialização, quer para impedir sua exploração. Devido aos altos preços de mercado, as pressões sobre essa espécie são maiores, sendo que grande parte da madeira comercializada é de origem ilegal. Não são consideradas as populações existentes nem seus remanescentes para fins de conservação. A faixa de terra onde ocorre essa depredação coincide com áreas de práticas agropecuárias. A exploração descontrolada está levando os estoques a uma situação calamitosa, na qual unidades de conservação e terras indígenas são invadidas para exploração e milhares de metros cúbicos de madeira são apreendidos anualmente sem clareza da sua destinação.

81) Desafio – A realidade brasileira demanda um sistema de gestão dos recursos florestais, com ênfase na promoção do manejo sustentável, incluindo o uso múltiplo das florestas. É preciso uma abordagem específica para programas de gestão ambiental e produção sustentável em terras indígenas, assentamentos agrários, pequenas propriedades rurais e comunidades tradicionais, priorizando a conservação dos biomas. Deve-se promover o consumo de produtos agroflorestais ou silvi-agropastoris de áreas naturais e plantadas nos mercados internacionais, nacionais e locais. Dos programas de merenda escolar às iniciativas de comércio justo internacional, é possível descobrir e incentivar nichos de mercado para essa produção.

INFRA-ESTRUTURA:
TRANSPORTES, ENERGIA, MINERAÇÃO E TELECOMUNICAÇÕES


82) A reestruturação e a expansão da infra-estrutura de transportes e energia no País são essenciais para a dinamização da economia brasileira, mas representam ameaça ao meio ambiente, à saúde da população e às relações sociais. Projetos de infra-estrutura estimulam o desenvolvimento sustentável desde que planejados e executados dentro do contexto específico de cada bioma, levando em conta as potencialidades e fragilidades do território e dos seres vivos, prevenindo ou mitigando impactos negativos, com base em critérios sociais, culturais e ambientais.

83) A legislação brasileira sobre energia é extensa e complexa, mas basicamente o sistema é constituído pelos seguintes órgãos: Ministério de Minas e Energia, Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), Agência Nacional do Petróleo (ANP) e Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

84) Os órgãos que integram o sistema de transportes são Ministério da Defesa, Ministério dos Transportes, Conselho Nacional de Integração de Políticas de Transportes (CONIT), Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) e o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DENIT).
85) Esses sistemas têm interfaces com a área de meio ambiente na medida em que os órgãos do SISNAMA são responsáveis pelo licenciamento e controle de todas as instalações de energia e transporte. Por isso, o Ministério do Meio Ambiente realiza entendimento com o Ministério de Minas e Energia, dos Transportes e da Defesa e com a coletividade, visando a estabelecer agendas conjuntas, possibilitando a interface, para inserir, de forma prioritária, a avaliação ambiental estratégica no planejamento de todas as ações, estimulando a participação da sociedade.

TRANSPORTES

86) A implantação da infra-estrutura de transportes no Brasil deixou enorme passivo ambiental. Isso porque o projeto, a implantação e a gestão da infraestrutura de transportes sempre se pautaram por parâmetros técnicos e requisitos econômicos e sofreram ingerência política. Outra questão a ser considerada é o próprio modelo, pautado no transporte rodoviário, que envolve altos custos de manutenção e grande consumo de energia fóssil.

87) O histórico de implantação dos projetos de infra-estrutura, cujo modelo centraliza as decisões no Governo Federal, reflete a falta de planejamento regional integrado, principalmente nos municípios mais carentes. Isso se verifica na dificuldade de escoamento da produção e nos custos para a mobilidade das pessoas. A falta de integração entre os meios de transporte evidencia o problema. Outras constatações são a ausência de critérios socioambientais e culturais na elaboração e no licenciamento dos projetos, a falta de obediência às normas e de consulta prévia às comunidades beneficiadas ou afetadas e a ausência de planejamento intersetorial.

88) A aplicação de grandes volumes de recursos na melhoria da malha viária, sem foco específico nas necessidades da região e no transporte público de passageiros, além de socialmente perversa, é responsável pelos problemas no tráfego, especialmente nos espaços urbanos, aumentando a carga de poluição provocada pelo trânsito de veículos individuais. Esta lógica prejudica diretamente a saúde, a segurança e a qualidade de vida da população, especialmente a das pessoas com menor renda.

89) A elaboração de um plano diretor nacional de transporte de cargas e passageiros a longa distância, assim como o planejamento integrado do transporte urbano com o intermunicipal e/ou interestadual, a implantação de terminais intermodais de carga e a melhoria ou reativação do transporte ferroviário de passageiros devem ser alvos de amplo debate coletivo, considerando a dimensão da sustentabilidade socioambiental.

Indicadores

90) Para transportes: movimentação de carga por modo de transporte; distância viajada por pessoa, por modo de transporte; comparativo do custo/benefício socioeconômico-ambiental de transporte de carga por modal de transporte; evolução da emissão de poluentes por quilômetro rodado, por tipo de veículo; acessibilidade universal; número de dias com boa qualidade do ar em regiões metropolitanas; extensão de ciclovias; alterações de uso do meio ambiente na área de influência dos sistemas de transporte ao longo do tempo; tempo e tipo de transporte utilizado para deslocamento casa-trabalho; investimentos em transportes tais como hidrovias e ferrovias; percentagem da renda familiar gasta com transporte; relação entre doenças respiratórias e poluição atmosférica.

ENERGIA

91) O desenvolvimento da infra-estrutura energética no País tem se pautado por critérios técnicos e por pressões da demanda, em vez de considerar o planejamento integrado do território, a variedade da matriz energética e os diferentes modos de vida das populações locais. Impactos negativos gerados pelo uso de energia não-renovável e a falta de investimentos em tecnologia de otimização dos meios convencionais de energia envolvem desde a poluição do ar e acidentes de transporte até o impacto direto sobre as populações das regiões produtoras e no entorno. As comunidades vêem seu modo de vida modificado e
seus territórios, pontos turísticos e históricos destruídos por incêndios, alagamentos, derramamentos e vazamentos de poluentes e contaminação de solos, rios e lençóis subterrâneos.

92) Cerca de 30 milhões de brasileiros, especialmente no meio rural, vivem em situação de exclusão, sem o mínimo de energia necessário a uma razoável qualidade de vida. Dependem de fontes energéticas caras, sujas e pouco confiáveis, como lampiões a querosene, velas e lenha de origem nativa. As conseqüências negativas para a saúde e o desenvolvimento humano são inúmeras. A fumaça dentro das casas, por exemplo, traz problemas respiratórios e a iluminação inadequada compromete a visão, reduzindo as oportunidades de estudar. É imperativo que o País faça uma ampla discussão sobre a presente e a futura matriz energética como condição para a sustentabilidade, com a perspectiva de inclusão social, estabelecendo metas, salvaguardando as particularidades regionais e suas vocações naturais, universalizando o acesso e priorizando fontes de energia renováveis mais limpas.

93) O Brasil apresenta índices de perdas na geração, transmissão e distribuição de energia de aproximadamente 17%, muito acima do nível médio internacional, que é de 6%. É necessária a criação de incentivos a programas que busquem restaurar, melhorar e otimizar os benefícios das usinas já existentes.

94) Nos processos de licenciamento, a população interessada dificilmente tem acesso a informações e capacidade de discussão adequada, além de ser informada dos projetos somente em etapas avançadas do processo. Assim, a Audiência Pública acaba sendo apenas mais uma etapa no processo de licenciamento, tornando-se, na prática, um instrumento para legitimar o projeto.

Diversificação e inclusão

95) O Brasil desenvolveu o programa Pró-Álcool, única experiência bem-sucedida no mundo de substituição em larga escala dos derivados de petróleo. A energia da biomassa é prioritária e estratégica do ponto de vista da soberania nacional, proporcionando, ainda, trabalho e renda no campo e descentralizando a produção. Algumas regiões do País apresentam grande potencial para a produção de energia eólica, isto é, gerada pelo vento, e para a utilização de energia solar que já está se expandindo, seja para a geração de calor seja para eletricidade. Essas alternativas podem diversificar e tornar mais renovável a matriz energética brasileira.

96) Projetos descentralizados de energias renováveis – solar, eólica, biomassa, biogás, pequenas hidrelétricas – devem ser incentivados para levar energia e inclusão social às populações sem acesso a esse bem. O estímulo ao desenvolvimento de tecnologias mais limpas de produção energética a custos competitivos poderá reduzir a demanda das centrais de geração em operação assim como de novos projetos, além de significar redução dos custos e das perdas em transmissão e distribuição.

97) Mesmo a produção das energias renováveis – como o álcool, o carvão vegetal e a hidroeletricidade – provoca impactos socioambientais negativos. As regiões produtoras de açúcar e álcool apresentam hoje grande concentração de terras agricultáveis. Nesses locais, a monocultura substituiu a agricultura familiar. Esse modelo de produção gera um contingente de 1,2 milhão de trabalhadores informais, ocupados apenas durante as safras e submetidos a condições de insalubridade e de injustiça social, responsável por parte do êxodo rural, degradação urbana e aumento da violência.

98) As usinas hidrelétricas inundaram mais de 34 mil km2 de terras, grande parte cultivável, destruíram a fauna e a flora e deslocaram cerca de um milhão de pessoas diretamente atingidas, além de causar degradação ambiental. Na maioria das vezes, elas receberam compensações financeiras irrisórias e foram reassentadas em locais que não asseguram a manutenção das condições de vida anteriores. São comuns problemas de saúde pública em volta das áreas inundadas e de comprometimento da qualidade da água nos reservatórios.

Educação para o consumo sustentável


99) O consumo sustentável de energia e de serviços de transportes depende tanto de definições de políticas quanto de ações cotidianas. Por isso, a Educação Ambiental precisa contribuir para ampliar a consciência sobre a importância de se racionalizar os usos, mostrando as conseqüências de processos insustentáveis oriundos de maus hábitos de consumo, além de possibilitar o conhecimento de formas alternativas de energia e transporte.

100) Indicadores: consumo de energia por pessoa, intensidade energética; participação de fontes renováveis na oferta de energia; evolução das emissões de CO2 provenientes de fontes energéticas; participação de fontes renováveis na oferta energética; participação da lenha e carvão vegetal no consumo energético do setor residencial e industrial; a taxa de eletrificação dos domicílios; e os gastos energéticos em função da renda familiar.

MINERAÇÃO


101) O território brasileiro oferece boas condições geológicas de suprimento de minerais, principalmente os da cadeia produtiva do aço, e de minerais nãometálicos, sejam os utilizados na fabricação do cimento, dos fertilizantes e dos compostos químicos, sejam os ditos agregados para a construção civil. Os negócios que envolvem os minérios produzidos no Brasil atingem cifras de dezenas de bilhões de dólares anualmente, mas sua organização ainda é deficiente.

102) Nenhum país do mundo é auto-suficiente em termos de geodiversidade e suprimento de recursos minerais e hídricos. O Brasil ostenta uma posição expressiva como detentor de grandes reservas minerais e hídricas. Por sua vez, esta geodiversidade exige tratamento específico quanto à gestão ambiental dos meios físicos, biótico e socioeconômico, principalmente no caso do aproveitamento dos recursos minerais e hídricos. Atualmente, apenas 10% do território brasileiro têm mapeamento na escala 1:100.000, que permite o planejamento regional e a definição dos ambientes metalogenéticos.

103) A Constituição de 1988 considera todos os bens minerais, inclusive as águas minerais, pertencentes à União (art. 20). A gestão territorial e a administração pública dos recursos minerais brasileiros estão na alçada do Ministério de Minas e Energia e o Código de Mineração e sua legislação complementar e correlata definem as regras para a concessão e controle dos recursos minerais do País. Seu aproveitamento econômico é feito por outorga às pessoas jurídicas (empresas ou cooperativas) instaladas no Brasil, com destaque para os regimes de concessão – alvará de pesquisa mineral, de licenciamento, registro de extração, de permissão de lavra garimpeira e de monopólio.

104) Todo e qualquer aproveitamento de recurso mineral deve, por lei, ser submetido a licenciamento ambiental. Dependendo do porte da lavra e do grau de impactos dela decorrentes, os instrumentos de EIA-RIMA, PCA/RCA, de processo de outorga de recursos hídricos e de licenciamentos para desmatamento são aplicáveis, com maior ou menor abrangência.

Indicadores

105) Número de áreas requeridas; medição de área degradada pela mineração; medição de área degradada recuperada; neutralização da emissão de efluentes; medição de plumas de sedimentos nas drenagens.

MEIO AMBIENTE URBANO

106) Os 5.561 municípios brasileiros são marcados, na sua grande maioria, por enormes desigualdades nos padrões de qualidade de vida, na inclusão sociocultural e nos direitos e exercício da cidadania. Isso decorre, em parte, de um modelo de desenvolvimento capitalista e da falta de compromisso dos governantes, o que se reflete no crescimento desordenado e excludente das cidades. Os grandes contrastes socioeconômicos são sentidos no interior das cidades, bem como entre municípios, estados e regiões. As grandes cidades vêm ganhando proporções antes inconcebíveis, basta lembrarmos que, no início do século XX, a população brasileira era predominantemente rural a fazermos a comparação com os dias de hoje. Atualmente, a economia nacional baseia-se nas cidades, que abrigam mais de 80% dos brasileiros.

107) Por falta de políticas públicas que possibilitem a permanência das pessoas nas pequenas cidades e no campo, os centros regionais e as metrópoles concentram a maioria das atividades econômicas e oportunidades de desenvolvimento humano. Os municípios com menos de 20 mil habitantes convivem com o esvaziamento econômico e demográfico. A concentração de terras em latifúndios e a falta de uma reforma agrária, associadas aos desequilíbrios regionais, alimentam os fluxos migratórios para esses centros regionais e para as metrópoles onde a perspectiva de oportunidades é, muitas vezes, ilusória, devido ao desemprego estrutural e à falta de estímulo às potencialidades locais. Até mesmo a criação de novos municípios converteu-se em problema, com os desmembramentos sendo deliberados sem planejamento urbano de sustentabilidade e sem fontes de recursos próprios.

108) Outro grande contraste ocorre entre o espaço urbano e o rural, no âmbito do município. As políticas ainda enfocam esses espaços como se fossem isolados e independentes entre si. Sabe-se, porém, que a cidade depende do meio rural para a provisão de alimentos e de água e que há uma interdependência entre o meio rural e o urbano. São avanços no sentido de resolver essa dicotomia: a Política Nacional de Recursos Hídricos, que tem a bacia hidrográfica como unidade de planejamento, e o Estatuto da Cidade, aprovado em 2001, que estabelece a obrigatoriedade do Plano Diretor para normatizar o uso e a ocupação do solo.

109) Já os grandes centros reproduzem em seu território as mesmas contradições: por um lado, zonas centrais cosmopolitas, ditas desenvolvidas, porém com inúmeros pontos de degradação do ambiente natural e do patrimônio construído; por outro, periferias com baixo custo imobiliário, abarrotadas de loteamentos e ocupações irregulares, com escassez ou sem acesso a serviços públicos. A dívida socioeconômica e ambiental das cidades exige grande volume de recursos, principalmente financeiros, assim como novos instrumentos de gestão e arranjos institucionais que viabilizem parcerias entre os setores público e privado.
110) A ausência, inadequação ou não-implementação de políticas públicas que abranjam as áreas metropolitanas, bem como de programas de gestão integrada de áreas urbanas e rurais tornam mais difícil equacionar os graves problemas existentes, tais como: controle de enchentes e drenagem urbana; poluição; contaminação; coleta, tratamento e destinação final de resíduos; proteção dos mananciais; ocupação de áreas de preservação ambiental e de risco; loteamentos irregulares; transportes e outros. Os planos diretores, quando existem, muitas vezes são inadequados, ou só dialogam com a cidade formal. Dessa 28 forma, reproduzem e ampliam a informalidade. Por um lado, são essenciais estudos específicos para cada cidade e município; por outro, é necessário o planejamento territorial integrado dos municípios de uma mesma bacia hidrográfica. É importante ressaltar que a atual gestão do Governo Federal criou o Ministério das Cidades, importante ferramenta para integrar as políticas públicas e enfrentar os grandes desafios da urbanidade.

111) Resíduos – As sociedades modernas são grandes produtoras de resíduos. Há relação direta entre eles e a produção e o consumo de bens e serviços, sendo necessária uma ação fiscalizadora sobre esse processo. As atividades industriais, agroindustriais, hospitalares, de transportes, serviços de saúde, comerciais e domiciliares produzem emissões gasosas e líquidos poluentes. Essas mesmas atividades produzem grandes volumes de resíduos sólidos, na forma de plásticos, metais, papéis, vidros, pneus, entulhos, lixo eletrônico, substâncias químicas e alimentos e, na grande maioria dos municípios, não existem, ainda,
mecanismos de gerenciamento integrado desses resíduos.

112) Em muitos municípios brasileiros os resíduos sólidos são depositados em lixões a céu aberto, mal localizados, atraindo pessoas de diferentes comunidades que deles passam a extrair a sua sobrevivência, em condições consideradas sub-humanas. Essa disposição inadequada do lixo doméstico permite a proliferação de moscas, ratos e outros vetores provocando doenças infecciosas e intoxicações químicas, produzindo odores, contaminando solos e aqüíferos, além do esgotamento do oxigênio de rios e lagoas, matando os organismos desses ecossistemas. As embalagens de plástico e de metal, pneus e muitos outros resíduos levam ao entupimento de esgotos e bueiros e ao assoreamento de córregos e rios, causando enchentes e facilitando o surgimento de epidemias. No Brasil, cerca de 16 milhões de pessoas não são atendidas pelos serviços domiciliares de coleta de lixo das cidades, especialmente aquelas que habitam regiões periféricas. Mesmo as áreas que são, hoje, atendidas por esses serviços, freqüentemente o são de forma deficiente.

113) Resíduos tóxicos de origem orgânica, como os organoclorados, ou inorgânicos, como metais pesados (chumbo, mercúrio, entre outros), provocam doenças e não se degradam na natureza. Pilhas, baterias de telefones celulares, lâmpadas de mercúrio e outros resíduos perigosos têm em sua composição metais pesados, altamente tóxicos, não biodegradáveis e que se tornam solúveis, penetrando no solo e contaminando as águas. Já os resíduos infectantes produzidos pelos serviços de saúde constituem risco pelo seu potencial de transmissão de doenças infectocontagiosas, uma vez que nem sempre são coletados, tratados, eliminados ou dispostos corretamente. Ressaltem-se ainda os resíduos de alto risco de contaminação, como o lixo radioativo. Estabelecimentos de armazenamento e distribuição de combustíveis também constituem riscos ambientais.

114) É prioritária a revisão de padrões e hábitos de vida que permitam a redução do consumo, do desperdício e que minimizem ao máximo possível a geração de resíduos. Para isso, a orientação na produção de bens e serviços deve mudar e passar a atender às reais necessidades humanas, por meio de uma política industrial e de exploração de recursos naturais sustentável, com gradual e permanente abandono da postura "mercadológica" naquilo que consiste em criar artificialmente novas necessidades na população. Quanto aos resíduos que forem produzidos, devem ser separados e prioritariamente reutilizados, desde que isso não implique riscos nocivos à saúde. Desse restante, uma parte considerável ainda pode ser reciclada, como papel, vidro, metal, alguns plásticos e outros materiais. Esse processo implica consumo de energia e água mas reduz o volume de lixo produzido e poupa fontes de matéria-prima reduzindo, assim, o custo global. Por último, o que não puder ser eliminado deve ser tratado e ter uma disposição adequada.

115) Água e Esgoto – Cerca de 20% da população brasileira não é atendida por abastecimento de água, 57% não têm seus esgotos ligados à rede pública e 80% não dispõem de tratamento de esgoto. São comuns, ainda, ligações clandestinas de esgoto em redes de águas pluviais e a falta de controle e fiscalização sobre isso. A maioria da população que não conta com esses serviços mora em habitações precárias em favelas, ocupações de terra e loteamentos irregulares, em bairros populares. Muitos municípios não têm condições técnicas e financeiras para o controle da ocupação do solo em sub-bacias urbanas e para investir em saneamento ambiental, lembrando que na conta da falta de saneamento ambiental não costuma ser incluído o custo de despoluição dos corpos d´água.
A situação atual de saneamento está diretamente relacionada a altas taxas de mortalidade infantil e cada real investido em saneamento básico propicia a economia de muitos outros em atendimento médico.

116) Ocupação do solo e drenagem urbana – As enchentes e alagamentos, bem como os deslizamentos de terra e erosões, tornam-se cada vez mais freqüentes nas cidades grandes e médias. Isso se deve a fatores diversos que provocam a impermeabilização do solo e a alteração do ciclo natural das águas.

São alguns deles: a ocupação indevida e o desflorestamento das margens dos cursos d’água, nascentes, encostas e demais áreas de preservação permanente, bem como em reservas florestais e unidades de conservação; empreendimentos imobiliários e outras formas de ocupação sem infra-estrutura e planejamento adequados; a falta de redes de coleta de águas pluviais (ou de manutenção das existentes); a deficiência ou ausência de medidas de prevenção de acidentes; o aterramento de áreas alagadas ou alagáveis e outros. A canalização dos cursos d’água leva, muitas vezes, ao comprometimento do equilíbrio hidrodinâmico, da biodiversidade local e da qualidade da paisagem urbana.

117) A tendência a impermeabilizar o solo, o aterramento de áreas alagáveis, a horizontalidade da ocupação urbana, a redução do tamanho dos lotes, a diminuição das áreas destinadas a praças, parques, jardins e hortos florestais têm transformado as grandes cidades em "estufas". A existência de áreas verdes públicas e privadas, preferencialmente compostas com vegetação nativa e árvores frutíferas, promove melhorias no microclima da cidade e na qualidade do ar, da água e do solo. Essas áreas também constituem-se em fatores indicativos de qualidade de vida, pois oferecem opções de lazer à população, têm funções estéticas, educativas e promovem o bem-estar físico e mental. Os parques urbanos e os remanescentes de vegetação natural podem ser entendidos como um sistema municipal ou distrital, a ser considerado no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).

118) Poluições atmosféricas, sonoras, visuais e eletromagnéticas – A emissão de gases por veículos automotores e pela indústria é a principal causa da poluição do ar nas cidades. A organização do sistema viário e de trânsito tem valorizado primordialmente o tráfego de veículos individuais em detrimento do transporte coletivo. Construir a mobilidade sustentável significa privilegiar o pedestre, a construção de ciclovias, o incentivo ao desenvolvimento de tecnologias e ao uso de combustíveis alternativos e a meios de transporte menos poluentes (metrô), bem como o controle e a inibição da emissão de gases poluentes.

Constatam-se atualmente deficiências ou falta de inspeção veicular e do controle dos níveis de emissão de poluentes. O mesmo ocorre quanto ao controle de ruídos, que deveria ocorrer em todo o espaço urbano, sobretudo nas adjacências de escolas e hospitais. A poluição sonora prejudica o sossego e reduz a qualidade de vida nas cidades, causando distúrbios de saúde e estresse. A poluição visual (excesso de informações, painéis e propagandas) e a perda da vista da paisagem natural são, também, grandes problemas. Outro é o desenvolvimento de sistemas de comunicação que gerou um crescente número de
usuários de telefonia celular e a necessária ampliação da instalação de antenas de retransmissão. Os impactos desses sistemas, assim como aqueles provocados por redes de alta tensão, ainda não foram devidamente avaliados.

119) A cidade na agenda global – Cada vez mais, as cidades promovem diversos espaços de integração internacional. A gestão urbana deve ser pautada pela ética, a economicidade e o combate ao desperdício para reduzir o enorme impacto nas questões ambientais globais, como o efeito estufa e o consumo energético. Assim, o cumprimento dos compromissos internacionais deve incluir a gestão ambiental urbana e considerar suas peculiaridades.

120) Marco institucional e legal – O Estatuto das Cidades, no plano legal, e a criação do Ministério das Cidades, no plano institucional, são conquistas importantes que permitem o desenvolvimento de abordagens sistêmicas para o desenvolvimento das cidades. A necessária reorientação das políticas e do desenvolvimento urbano depende da reestruturação dos sistemas de gestão municipais, metropolitanos, estaduais e federais, com a efetiva participação popular. Dessa forma, será possível o planejamento intersetorial e a implementação de programas conjuntos de ordenamento territorial urbano e rural, de habitação, transportes, saneamento ambiental e geração de trabalho, emprego e renda, educação e pesquisa do ambiente urbano.

121) As ações e políticas públicas federais têm obrigação de ser indutoras da sustentabilidade urbana e rural, situando-a dentro das opções de desenvolvimento nacional. Por outro lado, as instâncias decisórias, os serviços e os recursos financeiros devem ser descentralizados, não só para fortalecimento do governo local como para incentivo da co-gestão e do financiamento compartilhado.

122) A promoção de políticas voltadas para as regiões metropolitanas e a implementação de consórcios intermunicipais, prevista respectivamente nos arts. 25 e 241 da Constituição Federal, permitirão a gestão integrada de serviços públicos. Viabilizarão a cooperação entre municípios que tenham problemas urbanos, rurais e ambientais comuns e que possam compartilhar recursos para resolvê-los. Essa integração fortalece as cadeias produtivas locais e incentiva a economia sustentável das pequenas e médias cidades.

123) Políticas – A construção da Agenda 21 Local, por meio da parceria entre governo e sociedade, constitui instrumento para definir um plano estratégico e participativo de ações em âmbito econômico, social, ambiental e cultural. O planejamento deve incluir as vocações da cidade, em harmonia com o entorno rural, terras indígenas e unidades de conservação, com suas identidades culturais e ambientais, visando à ampliação de emprego e de renda, à qualidade de vida, ao controle social e ao desenvolvimento sustentável.

124) O zoneamento ecológico-econômico é fundamental para o desenvolvimento rural e urbano. Trata-se de um referencial básico para o planejamento, capaz de evitar a dilapidação do patrimônio natural resultante da ocupação desordenada do espaço e de definir a destinação das áreas de acordo com a sua vocação. Com isso, é possível orientar os investimentos e as ações governamentais e não-governamentais. O ZEE deve se integrar com outros instrumentos de gestão, como os preconizados pela política de recursos hídricos, aqueles propostos pelo SNUC, e com o orçamento participativo.

125) Acesso à informação – Os governos devem consultar a sociedade, intermediando os diferentes pontos de vista dos cidadãos e prestando as informações solicitadas sobre seu município. Para isso, devem ser utilizados os meios de comunicação disponíveis, bem como a ouvidoria pública. A inclusão digital pode agilizar processos, evitando, por exemplo, mais tráfego urbano, filas de espera e desconforto no atendimento. Iniciativas como as do programa E-gov, no âmbito do Ministério da Integração, devem ser ampliadas, abrangendo a área ambiental. A consolidação do Sistema Nacional de Informações sobre Meio Ambiente (SINIMA) deve contribuir para a obtenção de dados sobre a qualidade de vida nas cidades, o que ainda desafia as instituições responsáveis por indicadores socioambientais, pois encontram-se em estágio incipiente na maioria dos municípios. Grande parte dos problemas ambientais urbanos é resultante tanto da falta de conhecimento da população sobre a dinâmica ambiental e os impactos que a ação humana provoca na natureza, quanto do desconhecimento da legislação ambiental. A educação ambiental, fundamental para a melhoria da qualidade de vida, dá-se de forma dispersa e pouco eficaz.

126) Indicadores de sustentabilidade (para áreas urbanas e rurais): acesso à moradia adequada; grau de poluição hídrica, atmosférica, do solo, sonora, visual e eletromagnética; acesso à coleta e tratamento de resíduos sólidos; tratamento e disposição final adequada de resíduos sólidos domésticos e tóxicos; reciclagem de resíduos; indústrias de reciclagem implantadas; consumo de produtos reciclados; quantidade de resíduos gerados por habitante; solução adequada de esgotamento sanitário; índice de regularização fundiária; acesso a transporte público de qualidade; grau de utilização de transportes coletivos em relação aos individuais; número de deslocamentos a pé, de cadeira de rodas e de bicicleta; nível de segurança pública; índice de mortalidade infantil; índice de expectativa de vida do cidadão; índice de redução das desigualdades socioeconômicas; acesso a serviços de saúde e educação de qualidade; metros quadrados de áreas verdes por habitante; densidade populacional; percentagem de empregos gerados por atividades não-poluentes e ecologicamente sustentáveis; número de viagens entre área urbana e rural; percentagem de território abrangido por áreas protegidas nos termos do SNUC; gerenciamento de passivos ambientais; montante de recursos investidos em educação ambiental; número de conselhos paritários de planejamento e gestão ambiental em funcionamento; percentagem de municípios com planos diretores com enfoque ambiental; níveis qualitativos e quantitativos da flora e da fauna existentes; índices de desigualdade social; inclusão sociocultural; índice de êxodo rural; planejamento familiar; taxa de desemprego.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Diagnóstico Global

127) O aumento da concentração de gases de efeito estufa (GEEs) na atmosfera – como o dióxido de carbono, o metano, os óxidos de nitrogênio e enxofre, os CFCs etc. – é a principal causa do aquecimento global, grande ameaça às espécies vivas. Isso se deve, principalmente, à queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral), ao desmatamento, às queimadas e aos incêndios florestais. O aumento da concentração de GEEs intensifica o efeito estufa – isto é, contribui para a retenção de calor na atmosfera – o que provoca a elevação da temperatura média do planeta.

128) O resultado mais imediato é a elevação do nível do mar causada pela dilatação térmica dos oceanos e pelo degelo das calotas polares com a conseqüente inundação de cidades litorâneas e áreas baixas, como partes da Amazônia. Outros resultados negativos são a intensificação dos efeitos dos fenômenos El Niño e La Niña e o aumento da incidência de desastres naturais como secas prolongadas e enchentes, acarretando perdas de safra e estados de calamidade pública. A soma desses fenômenos pode gerar um grande número de "refugiados ambientais", acentuando problemas sociais.

129) O estágio atual das pesquisas permite ter uma certeza: se a humanidade não diminuir radicalmente a emissão de GEEs, não há como escapar de catástrofes ambientais. As conseqüências previstas são a perda de vidas humanas, de espécies animais e vegetais, assim como da totalidade de biomas e ecossistemas, além do aumento de gastos econômicos e sociais.

130) As mudanças climáticas em escala global atingem a todos, mas são sentidas principalmente pelas populações mais pobres. Países e regiões ricas dispõem de tecnologias e de recursos para diminuir os efeitos, enquanto as nações e regiões mais pobres dependem de auxílio externo.

131) Convenção Climática – A preocupação com esse problema levou vários países a firmarem um acordo internacional para estabilizar as concentrações de GEEs na atmosfera. A Convenção Climática, assinada durante a Rio-92, orienta os países industrializados a diminuírem seus lançamentos de GEEs na atmosfera e os países em desenvolvimento a não aumentarem sua curva de emissão. Em 1994, o Brasil ratificou a convenção de Mudanças Climáticas e em 2002 o Protocolo de Quioto, comprometendo-se com as metas do acordo.

132) Só será possível atingir os objetivos da Convenção por meio de mudanças estruturais na economia que efetivem a substituição do uso de petróleo, gás natural e carvão mineral por fontes renováveis e mais limpas de energia, como a energia solar e a eólica, o biogás de aterros sanitários, o álcool e o biodiesel. A conservação e a racionalização da produção e do uso de energia são importantes aliadas neste processo. É preciso adotar mecanismos econômicos, tecnológicos e legais de promoção do manejo sustentável de florestas nativas, de recuperação de áreas degradadas e de otimização da produtividade de culturas agrícolas. Também é necessário diminuir o desmatamento e as queimadas, além de implementar políticas de reflorestamento que respeitem a vegetação nativa e revertam processos de degradação e desertificação, bem como adotar práticas industriais, agrícolas e silviculturais que levem à redução das emissões de metano.

133) No contexto internacional, o Brasil reconhece que todos os países têm responsabilidades comuns, porém diferenciadas, em relação às mudanças climáticas globais, e que os países em desenvolvimento devem ter a oportunidade de desenvolver suas economias de forma ambientalmente sustentável. A responsabilidade histórica pelas emissões de GEEs é dos países desenvolvidos, de longe os maiores poluidores. Insiste também na necessidade de financiamentos e de transferência de tecnologias limpas para os países em desenvolvimento. Nesse sentido, o País teve papel de destaque durante as negociações finais do Protocolo de Quioto, quando articulou a aliança entre a União Européia e os países emergentes.

134) Mudanças estruturais no modo de vida e na economia das populações são politicamente difíceis. Contrariam interesses de nações poderosas, como os EUA e os demais países industrializados, e de indústrias, como a automobilística, a de cimento e a de energia. Mesmo diante desse impasse, desenvolveram-se na última década vários mecanismos de redução das emissões e de captura de carbono mediante incentivos financeiros. Ainda assim, esses esforços não foram suficientes para reduzir efetivamente as emissões de poluentes globais pelos países industrializados, prejudicando diferentes povos e ecossistemas.

135) Dentre esses instrumentos, o que mais interessa ao Brasil é o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permite aos países industrializados obterem créditos por reduções de emissões ao financiarem projetos de substituição de combustíveis fósseis ou de captura de carbono nos países em
desenvolvimento. A vantagem para as nações industrializadas é a oportunidade de reduzir as emissões com menor custo. Por outro lado, países como o Brasil recebem recursos para projetos de desenvolvimento sustentável.

136) Os países receptores desses projetos, como o Brasil, devem possuir um sistema para avaliar sua sustentabilidade, evitando impactos negativos sobre sistemas naturais. Os projetos devem evitar práticas que causem impacto negativo em populações, áreas de proteção, terras indígenas e ecossistemas naturais.

137) Além disso, esses projetos devem ser complementares às ações que os países industrializados realizam em seus territórios para redução das emissões de gases do efeito estufa, já que a principal crítica a esse mecanismo é que possibilita a manutenção de altos padrões de emissão de GEEs pelas nações desenvolvidas. Assim, o governo brasileiro não deve medir esforços junto aos fóruns internacionais para o aprimoramento do MDL.

Cenário Nacional

138) O Brasil, inversamente ao padrão mundial, tem na destruição das florestas a principal fonte de emissão de carbono e, nos combustíveis fósseis, a segunda. Nosso país emite anualmente cerca de 200 milhões de toneladas de carbono devido ao desmatamento e, sobretudo, às queimadas e aos incêndios florestais. Esse número é quase três vezes maior que o resultante da queima de combustíveis fósseis.

139) Apesar de o País ter destaque mundial na busca por alternativas ao petróleo e ao carvão, mostra-se contraditório em alguns de seus posicionamentos.

Devido à recente crise do setor energético, as termoelétricas passaram a ser apresentadas como solução emergencial. Enquanto isso, fontes energéticas limpas, como a solar e a eólica, encontram-se em fase bastante incipiente de exploração, o que demanda uma política mais intensa de apoio ao setor, como a recente promulgação da lei que estabelece o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia (PROINFA), cuja meta é instalar, até 2006, 3,3 mil megawatts entre projetos de energia eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas.

140) Ainda não existe uma definição governamental sobre o uso de recursos do MDL como instrumento de políticas públicas. Mas o instrumento tem induzido a ações de setores produtivos brasileiros e a negociação de projetos, caso a caso, entre agentes dos países industrializados e empresas e instituições brasileiras.

Infelizmente, alguns desses projetos não apresentam possibilidades de desenvolvimento sustentável regional. A indefinição governamental origina situações em que, por exemplo, os recursos do MDL são usados no desenvolvimento de florestas energéticas, iniciativa criticada por danos causados às comunidades tradicionais e aos ecossistemas naturais.

141) Desafios – É necessário consolidar um programa nacional de proteção ao clima no prazo máximo de dois anos (até 2005), sob as diretrizes aprovadas na Conferência Nacional do Meio Ambiente e as linhas orientadoras da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima. Este programa deve abranger políticas de controle das emissões de poluentes, de estímulo à pesquisa e ao uso de fontes renováveis de energia e de qualificação da tecnologia produtiva, além de otimização das práticas agrícolas, de utilização do espaço urbano e de planejamento regional do uso do solo e da gestão florestal. Para estabilizar sua curva de emissões, a sociedade brasileira precisa envolver os setores econômicos e produtivos que emitem diretamente GEEs – como indústria, produtores rurais, etc.

– e instituições de ensino e pesquisa na busca de modos de produção sustentável. As empresas de geração de energia, os fabricantes de equipamentos solares e eólicos, as empresas do setor de transportes e a indústria automobilística têm um papel importante nesse processo. Também é fundamental o envolvimento das indústrias siderúrgica, química, cimenteira, florestal, energética, de refrigeração e de agronegócios. É importante ressaltar a experiência dos diversos estados na implementação de projetos de monitoramento da qualidade do ar nos centros urbanos.

142) Educação e consciência – A proteção ao clima depende da consciência cidadã – inclusive dos investidores -- de que é possível mudar o destino do planeta. A população precisa ter acesso contínuo à informação sobre o impacto de pequenas atitudes, como usar a bicicleta ou o automóvel para deslocamentos cotidianos; racionalizar o uso de energia, escolhendo entre um chuveiro elétrico ou outro baseado no aquecimento solar; e estar ciente sobre os prejuízos causados pelo sistema de queimadas no cultivo das roças e as alternativas disponíveis a ele. O melhor instrumento para isso é a Educação Ambiental permanente para o consumo e produção sustentáveis e responsáveis.

143) Monitoramento – Uma ferramenta para planejar, identificar e monitorar a situação do clima, despertando a consciência da sociedade, é o Inventário de Emissões de GEEs. A identificação e o detalhamento do grau de vulnerabilidade dos ecossistemas, populações e setores econômicos aos efeitos das modificações do clima devem orientar a política e as ações do governo e da sociedade na regulamentação e aprovação dos projetos de MDL. Esse trabalho está sendo iniciado por instituições de pesquisas, universidades e ONGs.

PARTE II

PROPOSTAS PARA A POLÍTICA AMBIENTAL NO BRASIL

SISTEMA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE

144) O caminho a ser trilhado pela Política Nacional de Meio Ambiente em direção à sustentabilidade depende do fortalecimento da capacidade articuladora, coordenadora e executora dos órgãos do SISNAMA bem como do incentivo a políticas integradas que tenham a bacia hidrográfica como unidade de planejamento.

Estratégias prioritárias para isso são:

145) Incentivar a criação de órgãos e conselhos municipais de meio ambiente, incluindo mecanismos que facilitem sua estruturação, aparelhamento e articulação com os comitês de bacia.

146) Descentralizar os recursos financeiros para a municipalização da gestão ambiental, em processo semelhante ao que ocorreu com a saúde, assistência social e ensino fundamental. O Poder Público deve prever dotação orçamentária para custear a participação da sociedade civil nos órgãos do SISNAMA e para a estruturação de seus órgãos locais.

147) Criar, no âmbito do MMA, uma Secretaria Nacional de Fortalecimento e Descentralização do SISNAMA, que promova a rediscussão do SINGREH e do SNUC e atue em articulação com a ABEMA e a ANAMMA, Fórum de ONGs e outras entidades afins.

148) Criar incentivos fiscais para projetos ambientais nos moldes dos que existem hoje na área cultural.

149) Estimular a integração de Planos Diretores em regiões metropolitanas, nas áreas de transporte público, eficiência energética, saúde pública e saneamento ambiental.

150) Limitar o acesso a assentos em conselhos estaduais ou nacional de meio ambiente aos municípios que mantiverem equipe técnica multidisciplinar composta por pelo menos 60% de servidores públicos efetivados e contarem com conselhos municipais de meio ambiente em plena atividade e com base legal implementada.

151) Dar assento nos conselhos do meio ambiente a representantes das unidades especializadas em policiamento ostensivo ambiental das polícias militares.

152) Intensificar a sistemática de auditorias ambientais para detectar, coibir e punir irregularidades por parte da Administração Pública.

153) Criar um banco de dados dos infratores ambientais que não terão acesso aos recursos públicos.

154) Estabelecer o prazo de dois anos para que todos os municípios implementem suas Secretarias Municipais de Meio Ambiente concomitantemente com a apresentação de plataforma de desenvolvimento sustentável para a região.

155) Estimular a criação de Códigos de Responsabilidade Ambiental e Estatutos do Meio Ambiente nos municípios.

156) Apoiar a criação da Associação Estadual de Municípios e Meio Ambiente.

157) Aplicar no município de origem os recursos arrecadados pelo IBAMA provenientes de multas por infrações ambientais; estes recursos devem compor um fundo municipal de meio ambiente do qual 20% devem ser aplicados em educação ambiental e áreas afins.

158) Criar selo ambiental para municípios que possuírem política pública para área ambiental.

159) Articular os governos federal, distrital, estaduais e municipais, envolvendo também instituições de ensino, pesquisa e extensão, para a capacitação técnica, tecnológica e operacional dos órgãos ambientais nos diferentes âmbitos.

160) Que os organismos que compõem o SISNAMA tenham uma composição de quadro funcional permanente e em número suficiente para evitar a falta de continuidade que ocorre a cada troca de governo, bem como dotação orçamentária adequada para fazer frente à demanda do serviço.

161) Implementar um programa nacional de capacitação de recursos humanos nos municípios, voltado para a área de "gestão ambiental municipal".

162) Criar programas de capacitação para a implantação de Planos Diretores em consórcios municipais de áreas metropolitanas.

163) Estimular a ampliação dos quadros funcionais das polícias florestais e demais órgãos executivos e melhorar a capacidade técnica para fiscalização ambiental.

164) Aplicar repreensões justas, coerentes e transparentes aos agentes de fiscalização que não cumprirem suas funções delegadas.

165) Garantir a transparência e a coerência no julgamento das infrações ambientais.

166) Criar ouvidorias de meio ambiente nas três esferas de governo.

167) Revisar e consolidar o arcabouço legal relativo ao meio ambiente, incluindo o amplo debate no âmbito do CONAMA do Projeto de Lei Complementar número 12, de 2003, em tramitação na Câmara dos Deputados. Esse projeto fixa normas para a cooperação entre União, estados, Distrito Federal e municípios no que se refere a competências ambientais comuns.

168) Criar e estruturar mecanismos que garantam o acesso de cada cidadão e cidadã a informação sobre degradação e riscos ambientais, opções de uso sustentável dos recursos, incluindo técnicas e tecnologias adaptadas, além de questões jurídicas, políticas, econômicas e técnicas apropriadas de recuperação.

Essas informações devem também orientar sobre as formas de participar na tomada de decisões, em consonância com a Lei nº 10.650/2003 (Lei de Acesso à Informação). Esses mecanismos devem incluir a Internet, informes impressos oficiais, cartilhas, vídeos e quaisquer outros meios de difusão de informação.

169) Utilizar, como base de comunicação e acesso às informações do SISNAMA, as estruturas do IBAMA, do SIPAM e demais órgãos integrantes do Sistema.

170) Fortalecer a Comissão Tripartite como um dos grandes fóruns para a construção do pacto ambiental do País e instalação e consolidação de Comissões Tripartites nos estados e no Distrito Federal.

171) A descentralização do SISNAMA deve priorizar investimentos nas estruturas dos municípios e dos estados em relação ao órgão federal no estado, acelerando o processo de construção do pacto federativo para as questões ambientais, o que é imperativo para a eficácia do SISNAMA devido às dimensões continentais do nosso país.

172) Viabilizar o pacto federativo por meio da realização dos fóruns permanentes do SISNAMA.

173) Os órgãos seccionais devem planejar, coordenar, supervisionar, controlar e executar as ações relativas à política de meio ambiente no âmbito estadual, em consonância com políticas do órgão central, dando ênfase às atividades preventivas.

174) Privilegiar a execução local da política ambiental, fortalecendo e dinamizando os mecanismos de supletividade com articulação e coordenação.

175) Incentivar a criação de assessorias multidisciplinares de suporte técnico a consórcios intermunicipais, com participação de universidade, ONGs, sociedade civil e entidades de classes.

176) O compromisso de integração entre os municípios deve ser feito por meio de Comitês de Bacias Hidrográficas.

177) Estabelecer Agendas Nacional, Estaduais e Municipais de Meio Ambiente, para as quais as respectivas Conferências deverão estabelecer diretrizes e prioridades, garantindo ampla participação da sociedade e considerando a diversidade cultural no fortalecimento do SISNAMA; essas agendas deverão ser revisadas a cada dois anos, fornecendo novas diretrizes e prioridades, levando em consideração as ações prioritárias relacionadas na Agenda 21 brasileira.

178) O MMA deve criar agendas positivas com os demais ministérios que compõem o governo, que devem ser parte da Agenda Nacional do Meio Ambiente, para tratar a questão ambiental de forma transversal. A agenda ambiental comum entre o MMA e os demais Ministérios deve incorporar o conceito de sustentabilidade socioambiental no desenvolvimento das políticas públicas, principalmente no que toca às questões energéticas, agrícolas e de infra-estrutura, com ampla participação da sociedade. Para tal, é recomendada a constituição de um fórum de integração dos órgãos do Governo Federal.

179) Implementar diretrizes para o SISNAMA que dialoguem com a revisão anual do PPA 2004-2007 e que incidam na formulação do PPA 2008-2011.

180) Adotar o princípio do desenvolvimento sustentável como uma das bases do desenvolvimento nacional.

181) Adotar o princípio do desenvolvimento sustentável (à luz da Carta da Terra) como uma das bases do desenvolvimento nacional.

182) Adotar o modelo de desenvolvimento eco-socialista, tendo como bases principais a igualdade social e a sustentabilidade ambiental, em substituição ao modelo de desenvolvimento capitalista concentrador de renda e que só visa ao lucro e à exploração de mão-de-obra de trabalhadores, bem como à exclusão social.

183) Elaborar políticas de desenvolvimento sustentável, particularmente relativas à industrialização, que busquem mecanismos para proteger o País da nova distribuição internacional e inter-regional de riscos ambientais e ocupacionais – que tem exportado para os países em desenvolvimento os ramos de atividade mais consumidores de recursos naturais, insalubres e poluentes. Isto seria feito por meio da seleção de ramos de atividade socioambientalmente menos nocivos, da implantação de tecnologias limpas, do rigor do licenciamento ambiental e da ampliação das formas de participação da sociedade no controle dos processos produtivos.

184) Estimular os meios de comunicação a produzir e/ou veicular conteúdos informativos tratados exclusivamente sob o prisma da cultura da paz e de uma economia ambientalmente sustentável.

185) Criar programas de emprego e renda em atividades ambientalmente sustentáveis para populações envolvidas ou empregadas em atividades nocivas ao meio ambiente.

186) Fortalecer o Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) e apoiar a criação e a regulamentação de fundos estaduais e municipais a serem usados nas políticas de fomento e apoio a projetos e programas de implementação do SISNAMA.

187) Estudar a transformação do FNMA em Agência, com fundo permanente para financiamento a fundo perdido ou mesmo reembolsável.

188) Condicionar financiamentos e convênios do FNMA com governos municipais à existência e pleno funcionamento de conselhos municipais de meio ambiente e/ou de desenvolvimento sustentável.

189) Repassar 20% dos recursos do FNMA aos municípios, a exemplo do que ocorre no Fundef.

190) Ampliar a finalidade do FNMA visando ao fomento de projetos socioambientais nos quais deverão constar ações interdisciplinares de educação ambiental, no âmbito formal e não-formal, objetivando a sustentabilidade.

191) Dar assento aos municípios no conselho do FNMA.

192) Propor, por meio de Proposta de Emenda à Constituição (PEC), uma vinculação orçamentária para a área ambiental, a exemplo da área de educação, que detém 25% do orçamento federal.

193) Ampliar a aplicação do ICMS ecológico.

194) Fortalecer as diretrizes para o orçamento e planejamento participativo que integrem uma visão regional da gestão ambiental.

195) Desenvolver ações que valorizem a integração e a capacitação dos diferentes conselhos que compõem o SISNAMA.

196) Desenvolver ações de integração entre os poderes Legislativo e Executivo para o aprimoramento da base legal.

MECANISMO DE CONTROLE SOCIAL

197) Consolidar o controle social na política nacional de meio ambiente por intermédio da realização, a cada dois anos, de Conferência Nacional de Meio Ambiente deliberativa, com participação ampla dos diversos setores da sociedade.

198) Fortalecer a gestão participativa com clara definição das atribuições dos Conselhos de Meio Ambiente em relação ao Poder Legislativo, de forma a evitar conflitos.

199) Promover a eleição dos conselheiros municipais, estaduais e nacionais do meio ambiente durante as respectivas Conferências de Meio Ambiente, realizadas a cada dois anos.

200) Organizar e fomentar os conselhos de meio ambiente com representação paritária e caráter deliberativo, evitando a sua subordinação às administrações públicas.

201) Ampliar a participação dos municípios e das instituições que detêm responsabilidade econômica no CONAMA.

202) Ampliar a representação no CONAMA para representantes de organizações indígenas, da classe trabalhadora, de comunidades científicas, de movimentos sociais populares e de partidos.

203) Alterar a composição do CONAMA e dos demais conselhos do SISNAMA para 50% de usuários (sociedade civil), 25% de integrantes de governos e 25% de profissionais ambientalistas.

204) Criar, no âmbito do SISNAMA, mecanismos efetivos de divulgação e participação popular em audiências públicas, com especial atenção para a capacitação dos interessados em discutir os impactos ambientais dos empreendimentos.

205) Criar assentos para as instâncias representativas dos povos indígenas em todas as esferas de governo (federal, estaduais e municipais), de caráter consultivo e deliberativo, ligadas ao SISNAMA, de modo a garantir a efetiva participação desta parcela da sociedade na construção e execução das políticas do meio ambiente.

206) Estimular a criação de Conferência Indígena para tratar da questão ambiental.

207) Disponibilizar os bancos de dados referentes ao SISNAMA na rede de computadores, permitindo o acesso da sociedade.

208) Que o orçamento da área ambiental do governo seja construído por meio de processo de orçamento participativo.

209) O Ibama deve exercer as suas atribuições sempre em conjunto com outros órgãos governamentais e não-governamentais.

210) Os órgãos locais do SISNAMA devem atuar em conjunto com organizações não-governamentais que atuem em educação ambiental e construir canais de comunicação com a sociedade.

211) Articular os órgãos do SISNAMA com as entidades da sociedade civil, empresas privadas, ONGs, fóruns, movimentos, conselhos profissionais e demais entidades representantes da sociedade civil organizada (ONGs).

212) Todos os órgãos do SISNAMA devem prestar contas anualmente à sociedade.

213) O Poder Público deve estimular a participação popular na criação, desenvolvimento, coordenação e execução de projetos nas comunidades.

214) A revisão e a consolidação dos instrumentos jurídicos relativos ao meio ambiente devem ser amplamente debatidas entre União, Congresso Nacional, estados, municípios e sociedade civil.

AÇÕES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

215) Desenvolver uma política educacional para construção de novo modelo de desenvolvimento ecologicamente sustentável, socialmente justo e economicamente viável.

216) Dotar a construção do desenvolvimento sustentável de incentivos, créditos, parcerias e educação.

217) Produzir e divulgar materiais didáticos e de campanhas ambientais para serem utilizados na educação formal e informal, com ênfase no desperdício de água, ocupações das bacias e margens de rios.

218) Intensificar o processo de sensibilização, por meio da educação ambiental, em todos os níveis de ensino.

219) Revisar a Lei Nacional de Educação Ambiental, estabelecendo no ensino público e privado a obrigatoriedade de uma disciplina que trate da questão ecológica (ética ambiental).

220) Incentivar mecanismos, junto ao Ministério da Educação e Ministério da Ciência e Tecnologia, para que as universidades, faculdades e centros de pesquisa possam ser avaliados por sua participação nos processos de planejamento e gestão ambiental.

RECURSOS HÍDRICOS
POLITÍCA E GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS


Em direção à sustentabilidade

221) Fortalecimento dos órgãos e instituições locais e regionais, como também da participação da sociedade civil na busca de alternativas para o uso racional, a despoluição e a ampliação da oferta de água de boa qualidade.

222) Fortalecer, organizar, reestruturar e capacitar os órgãos e instituições locais e regionais na busca de alternativas para o uso racional, despoluição e recuperação dos corpos d´água e ampliação da oferta de água em quantidade e qualidade, com a participação efetiva da sociedade civil e de instituições.

223) Garantir a alocação de recursos financeiros, provenientes dos diversos poderes públicos e das diferentes fontes de arrecadação – multas, royalties e compensação financeira -– para o fortalecimento institucional e a efetivação de projetos de monitoramento, despoluição (tratamento de efluentes), recuperação e revitalização dos corpos d’água na bacia de origem.

224) Apoio à estruturação dos sistemas estaduais de gerenciamento de recursos hídricos e fortalecimento dos comitês de bacias como instâncias de negociação e gestão coletiva dos recursos hídricos.

225) Apoiar a criação e a estruturação dos órgãos e sistemas estaduais e municipais de gerenciamento de recursos hídricos e fortalecimento de consórcios regionais, comitês e agências de bacia e associações de microbacias como instâncias consultivas, deliberativas, de articulação, negociação e gestão pública dos recursos hídricos, visando ao envolvimento da sociedade, à gestão participativa e ao controle social.

226) Criar um fundo para aplicação de recursos e apoio à estruturação dos sistemas estaduais de gerenciamento de recursos hídricos e fortalecimento dos comitês de bacia como instâncias de negociação e gestão coletiva dos recursos hídricos.

227) Estabelecer mecanismos financeiros e técnicos para apoiar a implementação da política de recursos hídricos naquelas bacias que não apresentam realidade apropriada para cobrança de água, especialmente para a região Amazônica.

228) Integração das políticas nacionais de meio ambiente e recursos hídricos.

229) Integrar as políticas nacionais, estaduais e municipais de meio ambiente e recursos hídricos, em articulação com as políticas nacionais setoriais tais como as de saneamento, recursos minerais, agricultura, reforma agrária, transporte, energia, indústria, educação, saúde, habitação, etc.

230) Utilizar outros instrumentos da política ambiental – Agenda 21, zoneamento ecológico-econômico e planos diretores de ordenamento territorial, na gestão dos recursos hídricos.

231) Instituir instância de ação entre os ministérios, secretarias e órgãos onde se possa exercitar a articulação e integração dos programas, projetos e ações de meio ambiente e recursos hídricos com os demais setores, tais como: habitação, saneamento ambiental, saúde, desenvolvimento agrário, turismo, etc.

232) Fortalecimento e integração dos órgãos estaduais e municipais de meio ambiente e de recursos hídricos, para atuação conjunta com o Governo Federal em sua gestão.

233) Criar, fortalecer e prover maior integração entre os órgãos, entidades e sistemas estaduais, distritais e municipais na promoção da gestão ambiental e de recursos hídricos, para uma atuação conjunta com o Governo Federal – envolvendo a estruturação da rede de atendimento, fortalecimento da equipe de trabalho, implementação de ouvidorias e unificação de procedimentos comuns -– estimulando a descentralização das ações e a participação da sociedade civil organizada.

234) Articular a gestão dos recursos hídricos com os municípios quanto ao uso e a ocupação do solo.

ENQUADRAMENTO E PLANOS DE BACIA

235) Previsão de metas de qualidade para o futuro dos mananciais.

236) Fomentar as iniciativas de classificação e enquadramento dos corpos d’água, a partir do estabelecimento de metas de qualidade de água, visando à recuperação e proteção dos mananciais, no âmbito dos comitês de bacias hidrográficas, cujos resultados serão periodicamente acompanhados e avaliados por meio de monitoramento.

237) Realizar diagnósticos (estudos de qualidade e quantidade de água) sobre a situação dos mananciais quando da elaboração das metas (enquadramento) e planos de bacias hidrográficas.

238) Estimular e apoiar a realização dos planos de bacia.

239) Elaborar, estimular e apoiar técnica e financeiramente a realização dos planos nacionais e estaduais de recursos hídricos, aprovados pelos comitês de bacias hidrográficas.

240) Estimular as ações nacionais, estaduais e municipais de planejamento e gerenciamento – que visem à recuperação e conservação das bacias, córregos, nascentes, sub-bacias, microbacias, regiões aqüíferas e águas subterrâneas.

241) Estimular e apoiar a realização dos planos de bacias hidrográficas estabelecendo diretrizes para a elaboração de planos diretores municipais que contemplem as bacias hidrográficas como unidades de gestão e planejamento.

242) Definir as responsabilidades de cada ação proposta nos planos de bacia, ampliando o investimento de recursos públicos em áreas prioritárias, principalmente em abastecimento de água e saneamento.

FISCALIZAÇÃO, MONITORAMENTO, OUTORGA E LICENCIAMENTO

243) Implantação de sistemas de alerta da qualidade da água e de previsão de cheias, permitindo ao governo e à sociedade prevenir acidentes.

244) Implantar sistemas de monitoramento de alerta da qualidade da água e de previsão de cheias ou estiagens em áreas críticas, com a participação de ONGs, facilitando ao governo e à sociedade a tomada de decisões quanto ao uso sustentável da água, a detecção de organismos e substâncias tóxicas e a prevenção de acidentes.

245) Mapear e monitorar as fontes potencialmente poluidoras dos recursos hídricos e implantar sistemas de alerta da qualidade da água para prevenção de acidentes.

246) Criar um disque-denúncia e páginas na Internet para receber denúncias referentes ao mau uso e degradação dos recursos hídricos, e inclusão das ONGs no processo de fiscalização exercido pelos órgãos ambientais, garantindo o controle social dessa atividade.

247) Criar, estruturar e fortalecer órgãos e instituições municipais e estaduais de recursos hídricos e meio ambiente, para a realização das atividades de fiscalização e licenciamento ambiental, garantindo a descentralização das ações.

248) Fiscalizar rigorosamente as empresas poluidoras de rios e córregos, nas empresas de saneamento e abastecimento de água, em represas de dejetos químicos, no transporte de produtos perigosos em hidrovias, na utilização de agrotóxicos, nas práticas agrícolas impróprias e desmatamento, nas atividades de garimpagem e mineração, na captação de águas subterrâneas por meio de poços, entre outras atividades que utilizam os recursos hídricos.

249) Reavaliar os equipamentos hidráulicos com o objetivo de reduzir o consumo de água pelos usuários.

250) Estabelecer parcerias com centros de pesquisa e implantação de rede de laboratórios, nos estados, para análises de resíduos de pesticidas e metais pesados em efluentes líquidos industriais, visando a garantir a qualidade da água e evitar possíveis contaminações do lençol freático.

251) Aplicar multas mais efetivas e exercer maior rigor no cumprimento da lei para as infrações cometidas com relação ao uso e poluição dos recursos hídricos, em especial aos órgãos públicos responsáveis pelo fornecimento de água e tratamento de esgotos.

252) Monitorar e controlar a quantidade de águas – superficiais e subterrâneas, em todos os estados, com padrão tecnológico definido pelo CNRH.

253) Levantar a situação atual dos cursos d’água principais e de seus afluentes e elaborar propostas de enquadramento de todos os cursos d´água até 2008, levando em consideração as peculiaridades dos rios intermitentes.

COBRANÇA

254) Implementação da cobrança pelo uso da água nas diversas bacias hidrográficas do País e aplicação dos recursos oriundos na bacia de origem e de acordo com as prioridades estabelecidas pelos respectivos comitês.

255) Implementar a cobrança diferenciada pelo uso da água nas diversas bacias hidrográficas do País, de acordo com o volume utilizado, capacidade de pagamento e grau de poluição dos usuários, como mecanismo educador, disciplinador, de preservação e recuperação de bacias e com o reinvestimento do valor cobrado na bacia de origem.

256) Aplicar integralmente os recursos provenientes da cobrança pelo uso da água na bacia de origem e de acordo com as prioridades e critérios estabelecidos pelos respectivos comitês, que se baseiam em estudos de diagnóstico e indicam as ações de recuperação e levam em consideração as peculiaridades dos rios intermitentes.

257) Aplicar exclusivamente os recursos provenientes da cobrança pelo uso da água na bacia de origem e de acordo com as prioridades e critérios estabelecidos pelos respectivos comitês, que se baseiam em estudos de diagnóstico e indicam as ações de recuperação e levam em consideração as peculiaridades dos rios intermitentes.

258) Aplicar prioritariamente os recursos provenientes da cobrança pelo uso da água na bacia de origem e de acordo com as prioridades e critérios estabelecidos pelos respectivos comitês, que se baseiam em estudos de diagnóstico, e indicam as ações de recuperação e levam em consideração as peculiaridades dos rios intermitentes.

259) Recomendar aos comitês de bacia que o benefício gerado em uma Unidade de Conservação, por meio da aplicação do princípio do usuário-pagador, seja revertido para a própria unidade de conservação.

260) Implementar a cobrança pelo uso das água para todos os usuários, sejam industriais ou individuais, excetuando-se o setor agropecuário, quando caracterizado como pequenos produtores rurais, a agricultura de subsistência e os programas sociais de baixa renda.

261) Implementar a cobrança pelo uso da águas subterrâneas nas diversas bacias e de acordo com as prioridades estabelecidas pelos respectivos comitês.

INFORMAÇÕES SOBRE RECURSOS HÍDRICOS

262) Implantação do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos e de um cadastro nacional de usuários desses recursos.

263) Implementar e atualizar o Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, definido numa base única, padronizando e integrando as informações hidrológicas, compartilhando os bancos de dados entre os órgãos gestores de recursos hídricos e disponibilizando as informações para toda a sociedade.

264) Estruturar e implantar um cadastro georreferenciado – nacional, estadual e municipal, de usuários dos recursos hídricos, no âmbito da bacia hidrográfica.

265) Viabilização de acesso igualitário à informação sobre o uso da água para os diferentes atores envolvidos na gestão desse recurso.

266) Viabilizar acesso igualitário à informação sobre recursos hídricos referente aos usos na bacia e qualidade da água nos mananciais, mediante divulgação por meios eletrônicos e outros meios, para os diferentes atores envolvidos na gestão e utilização desse recurso, incluindo os povos indígenas.

CONSERVAÇÃO DE ÁGUA E SOLO

267) Articulação com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação na proteção de nascentes e áreas de recarga das bacias.

268) Articular com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação para o estabelecimento de áreas de proteção de nascentes, mananciais, matas ciliares, veredas e recarga das bacias e microbacias, por meio da implantação e fortalecimento dos conselhos gestores das Unidades de Conservação.

269) Implementar medidas (programas e projetos) para a proteção e recuperação de nascentes, matas ciliares e veredas, apoiadas em parcerias entre empresas fornecedoras de insumos e mudas e proprietários rurais, com a orientação técnica e fiscalização dos órgãos florestais competentes.

270) Criar Áreas de Proteção Ambiental nas cabeceiras dos rios e seus afluentes.

271) Estimular e incentivar os proprietários rurais a adotarem medidas de manutenção, recuperação e proteção de matas ciliares e nascentes.

272) Estruturação de mecanismos que promovam a conservação dos recursos hídricos e que estimulem maior eficiência do uso da água na produção (irrigação, saneamento e indústria), reduzindo as perdas por meio de tecnologias adequadas, incentivos e instrumentos econômicos.

273) Estruturar mecanismos que promovam a conservação dos recursos hídricos e estimulem maior eficiência do uso da água na produção (aqüicultura, agropecuária, irrigação, saneamento e indústria), reduzindo as perdas e o uso indevido, por meio de tecnologias adequadas e incentivos econômicos e divulgando informações sobre alternativas para o uso racional da água.

274) Incentivar a prática de reuso da água.

275) Estimular política de desconto para os consumidores que reduzirem seus consumos de água.

276) Apoiar a redução da carga tributária na aquisição de equipamentos de reuso e/ou tratamento de efluentes.

277) Valorização de empresas com responsabilidade social e ambiental no uso dos recursos hídricos.

278) Valorizar empresas, municípios, órgãos e entidades da sociedade civil com responsabilidade social e ambiental no uso da água e da preservação e manutenção de sua qualidade e disponibilidade, com a concessão de um selo azul de qualidade.

279) Incentivo a projetos de revitalização de bacias, que incluam a implementação de sistemas de tratamento de efluentes e manejo dos resíduos sólidos.

280) Incentivar projetos de revitalização de bacia, que protejam de forma integrada os diferentes recursos naturais (água, solo, vegetação), incluindo as matas ciliares e de topo com espécies nativas, a demarcação de faixas marginais de proteção, a conservação de solos e o combate ao assoreamento, queimadas e desmatamentos e a implementação de sistemas de tratamento de efluentes e manejo dos resíduos sólidos, especialmente nas áreas mais pobres.

281) Estabelecer programas de avaliação e proteção de aqüíferos subterrâneos e promover estudos de viabilidade para a transformação das áreas de recarga em APPs – Áreas de Preservação Permanente.

282) Elaboração e implementação de plano de ação nacional para o combate à desertificação.

283) Promover programas de dessalinização da água de poços artesianos de comunidades urbanas e rurais carentes afetadas pela estiagem, treinando as pessoas da comunidade a serem atendidas, considerando o aproveitamento sustentável dos rejeitos dessa atividade.

284) Elaborar e implementar um plano de ação nacional para combate à desertificação e recuperação de áreas em processo de desertificação.

285) Estímulo a projetos e metodologias que valorizem formas sustentáveis de convivência com o semi-árido.

286) Estimular e financiar projetos e metodologias e técnicas que valorizem formas sustentáveis de convivência com o semi-árido.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL, CAPACITAÇÃO E TECNOLOGIA

287) Sensibilização da sociedade, por meio de ações da educação ambiental, para evitar o desperdício de água.

288) Sensibilizar a sociedade, em especial o setor produtivo, pelos meios de comunicação e por ações da educação ambiental, em âmbito nacional, estadual e municipal, quanto ao uso sustentável dos recursos hídricos para evitar a poluição e o desperdício de água, incentivar o seu reuso, reconhecendo o valor socioeconômico e ambiental deste recurso natural, por meio de ações coordenadas pelos Ministérios da Educação e Meio Ambiente Agência Nacional
de Águas e Secretaria de Recursos Hídricos.

289) Desenvolver programas de Educação Ambiental que visem a proteção, recuperação e saneamento dos rios urbanos e suas nascentes.

290) Incluir a água como tema transversal no currículo do ensino fundamental, médio e superior, assim como na alfabetização de adultos, enfatizando o uso adequado da água e sua reutilização no âmbito doméstico.

291) Divulgar amplamente a Política Nacional de Recursos Hídricos perante a sociedade pelo Ministério da Educação.

292) Conscientizar a população com campanhas educativas municipais, estaduais e nacionais (incluindo turistas) para entender os problemas potenciais com a água naquela região, incluindo educação para diminuir o desperdício de água.

293) Fomento a projetos de difusão e de pesquisa científica e tecnológica para o uso sustentável e a conservação dos recursos hídricos.

294) Fomentar projetos de educação ambiental, difusão e de pesquisa científica e tecnológica relacionados ao uso sustentável, reuso, conservação e recuperação dos recursos hídricos, alocando, para tanto, recursos do orçamento da União e de outras fontes.

295) Realizar projetos de pesquisa relativos ao diagnóstico, conservação e preservação dos recursos hídricos, assim como os procedimentos e tecnologias para a reutilização da água e tratamento adequado de efluentes domésticos, industriais e hospitalares.

ÁGUAS SUBTERRÂNEAS E RIOS TRANSFRONTEIRIÇOS

296) Promoção da gestão das águas subterrâneas, contribuindo para a sustentabilidade, o uso racional e o aumento da disponibilidade hídrica, em ações coordenadas com o MME.

297) Fortalecer a gestão integrada das águas subterrâneas e superficiais, contribuindo para a sustentabilidade, o uso racional e o aumento da disponibilidade hídrica, em processo coordenado pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH).

298) Promover ações coordenadas com o Ministério de Minas e Energia e Agência Nacional de Águas visando à alteração das dominialidades dos aqüíferos subterrâneos.

299) Promover a gestão co-participativa pelos órgãos estaduais, ANA e FUNAI, nos aqüíferos (mananciais subterrâneos) que ocupam áreas de mais de uma unidade da Federação.

300) Promoção de estudos, em parceria com o Ministério das Relações Exteriores, para o gerenciamento dos recursos hídricos transfronteiriços.

301) Promoção de estudos, em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e Ministério da Defesa para gerenciamento de recursos hídricos transfronteiriços com participação dos comitês de bacias hidrográficas garantindo a gestão compartilhada.

302) Defender, junto à ONU, a proposta de instituição do Contrato Mundial da Água que impede os processos de privatização e/ou mercantilização dos recursos hídricos que devem ser declarados bem comum da humanidade, com direito de acesso assegurado a todos.

SANEAMENTO

303) Obrigatoriedade da instalação de sistemas de tratamento de esgoto, num prazo de 15 anos, para todas as áreas urbanas, ficando proibido o lançamento de efluentes não tratados nos córregos e rios.

304) Garantir investimentos, a fundo perdido, para a implementação, ampliação e melhoria dos sistemas de saneamento básico.

305) Garantir direito universal para o saneamento ambiental, sendo sua gestão pública.

306) Criar legislação específica para a questão do saneamento básico nas cidades, incluindo o tratamento de efluentes, ampliação da rede de esgotos e a destinação correta dos resíduos sólidos.

307) Promover reestruturação e recuperação das empresas públicas de saneamento, com recursos do FGTS, e garantindo-o com controle social.

308) Estabelecer incentivos para o tratamento obrigatório do esgoto doméstico e para a coleta do lixo.

TRANSPOSIÇÃO DE BACIAS E PRIVATIZAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS

Proibir a transposição do São Francisco em qualquer instância, independentemente dos resultados dos estudos de viabilidade técnica.

Permitir a transposição do São Francisco somente após a aprovação do Plano da Bacia do São Francisco e aprovação dos Estudos de Impacto Ambiental (RIMA e EIA).

Elaborar Estudos de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) para os projetos de transposição de rios, considerando, quando da análise da viabilidade técnica e ambiental, a relação custo-benefício e a sustentabilidade dos recursos naturais, promovendo uma ampla discussão com a sociedade civil organizada, técnicos e representantes políticos, garantindo a democratização dos resultados e o controle social.

Permitir a transposição de águas do rio Tocantins para o São Francisco, quando do processo de sua revitalização, realizando, previamente, um Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA).

Realizar a moratória para a transposição do rio São Francisco, com um prazo de 10 anos para discussão do empreendimento com todos os segmentos sociais, e implementar a revitalização avaliando-se seus resultados, após os 10 anos referidos, com divulgação para a sociedade.

Rejeitar qualquer forma de privatização e terceirização da gestão dos recursos hídricos, em especial os serviços de saneamento ambiental e abastecimento de água, com o fortalecimento das empresas públicas municipais e estaduais.

Discutir amplamente com a sociedade a privatização de empresas que exploram economicamente os recursos hídricos no País.

BIODIVERSIDADE E ESPAÇOS TERRITORIAIS PROTEGIDOS

Em direção à sustentabilidade


309) Um dos principais desafios da atualidade e para o futuro do Brasil consiste em promover o desenvolvimento regional e a diversificação da matriz produtiva, de forma a gerar emprego e renda e incorporar modelos de uso sustentável dos recursos naturais. Algumas recomendações para isso:

310) Alocar os recursos financeiros e humanos necessários, bem como intensificar os esforços de proteção, recuperação e conservação da biodiversidade e de gestão integrada e participativa em todos os biomas, corredores ecológicos, mosaicos e APPs, aumentando a escala de atuação de forma a incluir terras indígenas e quilombolas e outras comunidades tradicionais, com sua participação plena, respeitando o usufruto exclusivo indígena dos recursos naturais.

311) Criar arenas, fóruns e grupos institucionais, no âmbito federal, estadual e municipal, na medida de suas competências, com a participação paritária do Poder Público, Privado e Sociedade Civil, de caráter deliberativo, para a resolução de conflitos socioambientais relacionados ao uso e acesso à biodiversidade.

312) Articular as instâncias do SISNAMA para viabilizar o uso sustentável da biodiversidade.

313) Fortalecer e capacitar os Órgãos e Conselhos de Meio Ambiente, em todas as esferas de governo, para a gestão das unidades de conservação e o manejo da biodiversidade, garantindo ampla participação da sociedade civil, incluindo populações tradicionais e indígenas, ONGs e a iniciativa privada.

314) Articular SNUC e SINGREH e a política de gerenciamento para a proteção, recuperação e preservação e conservação de nascentes, cabeceiras de rios, cursos d’água e matas ciliares e áreas de recarga, topos de morros, encostas e berçários estuarinos promovendo a criação de unidades de conservação de proteção integral nessas áreas, bem como a recuperação de áreas degradadas de matas ciliares e insulares situadas no interior e fora das unidades de conservação.

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